Morre Ricardo Corrêa da Silva, conhecido como o ‘Fofão da Augusta’

Augusta amanheceu triste. Um ícone, que recentemente teve parte de sua vida desvendada pelo jornalista Chico Felitti. Ricardo nunca será esquecido.

Ricardo Corrêa da Silva, conhecido como Fofão da Augusta, morreu na tarde desta sexta-feira (15). A informação é do jornalista Chico Felitti, que publicou uma detalhada reportagem do artista de rua no site BuzzFeed em outubro deste ano.

Agora entregador de panfletos na região da rua Augusta, em São Paulo, Ricardo estava internado no Hospital Municipal do Mandaqui e, seis dias após completar 60 anos, teve uma parada cardíaca. Os médicos tentaram ressucitá-lo, mas não conseguiram.

Segundo informações do jornalista, Ricardo será cremado e suas cinzas serão depositadas com as de seus pais, na cidade de Araraquara, interior de São Paulo.

Ricardo ficou conhecido como Fofão da Augusta depois que preencheu as bochechas com cerca de meio litro de silicone. O rosto ficou parecido com o do personagem que apresentava um programa infantil na TV aberta nas décadas de 1980 e 1990.


Por Chico Felitti em 16 de dezembro de 2017:

O Ricardo morreu. Como notícia ruim viaja a jato, fico sabendo minutos depois, no meio da madrugada, mesmo a 10 mil quilômetros do hospital do Mandaqui, onde ele estava internado.

Fico com a responsabilidade doída de contar para a família e para o amor da vida dele, que ele reencontrou nos últimos dias de vida. Tento não chorar ao telefone. Depois de falhar três vezes, paro de tentar. Dada a notícia, acaba a responsabilidade e fica só um vazio. E uma honra por ter conhecido esse homem nos últimos anos. Uma honra que não é profissional, mas muito humana, e é por isso que publico aqui esse texto que me desceu na madrugada em que eu soube da sua morte.

RICARDO TEM UM NOME

Tarde de 28 de outubro de 2018. Uma mulher para Ricardo Corrêa da Silva no meio da rua Aurora, no centro de São Paulo, e abre os braços. “Querido, fiquei tão feliz de conhecer você melhor. Eu também sou maquiadora!” Ricardo, quando sai do abraço em que ela o envolve, responde, projetando sua voz fina mais do que o de costume: “Mas o prazer é todo meu!”.

Fazia menos de 24 horas que o Buzzfeed havia publicado um perfil sobre a extraordinária vida de Ricardo.

Ricardo é um artista de rua poliglota que distribui panfletos nas ruas do centro de São Paulo há mais de 30 anos, e ficou conhecido como Fofão da Augusta porque preencheu suas bochechas com cerca de meio litro de silicone.

Susane, a cabeleireira que o parou para um abraço, não é a única a se manifestar. Pessoas passam a escrever contando seus encontros com Ricardo. Um homem manda uma foto de Ricardo na estação Barra Funda do metrô. Narra que duas pessoas chegaram até ele o chamando pelo nome, e perguntando se ele precisava de algo. Que uma senhora deu cinquenta reais, e ele respondeu: “Só se não for fazer falta, querida”.

Outras compartilham memórias.“Minha mãe cortava o cabelo com ele no Shirley’s, é uma lembrança da minha infância”, diz uma administradora. Um homem que foi voluntário no refeitório de um abrigo na rua Penaforte Mendes, na Bela Vista, narra a vez em que Ricardo entregou a ele uma sacola com dois pombos, mortos e depenados, e disse: “Cozinhe com alcaparras. É uma iguaria na França”.

Uma amiga de infância compartilha fotos de um Ricardo jovem e moreno, mostrando um corpo atlético sem camisa. Há pessoas que antes temiam Ricardo e passaram a cumprimentá-lo na rua.

Foram 1.500 mensagens de Facebook, mais 2.400 comentários na matéria.

O AMOR DA MINHA VIDA
Uma pessoa essencial na biografia de Ricardo também entra em contato. É Vânia Munhoz, que por oito anos namorou Ricardo, quando ainda se chamava Vagner. O casal teve dois salões de beleza, um em São Paulo e outro em Araraquara, antes de Vânia se mudar para Paris, passar pelo processo de transição para assumir sua identidade feminina e começar um périplo de dezenas de cirurgias para retirar o silicone que um aplicava no rosto do outro.

Enquanto isso, a rotina de Ricardo permanece igual. Dorme durante o dia no hotel Alfama, na Cracolândia do centro paulistano, e trabalha à noite na avenida Paulista, para onde vai andando. Dois dias após a matéria ser publicada, na segunda-feira, estou andando com Ricardo até o seu trabalho quando ele diz que quer tirar documentos. “É que perdi os meus outros.”

Marco um horário para a quarta-feira, às 13h. Uma hora antes, passo no hotel, onde ele espera com os cabelos penteados, ainda molhados. “Eu nem dormi. Trabalhei até as três da manhã e fiquei te esperando, não queria atrasar.” Fazemos o caminho entre o hotel onde ele mora e a praça da Sé pelas ruas pedestriais do centro da cidade.

Uma jovem pede para fazer uma selfie. Ricardo a abraça. Depois, pergunta se eu não quero fazer uma fotografia dele. “Hoje eu me arrumei bastante.” No retrato, ele está em pé, no meio de uma multidão na rua Sete de Abril. Ele olha para a câmera, mas não sorri.

Chegamos à Praça da Sé meia hora antes do horário agendado. Pergunto se Ricardo está com fome. Ele diz que não tomou café da manhã, só jantou frango frito do KFC, presente de um grupo de jovens na avenida Paulista. Paramos em um restaurante. Comenta que é a primeira vez que ele come em um restaurante em muitos anos. “Sou muito simples, não gosto de chamar atenção.” Pede strogonoff de frango, com arroz e batata palha. Come com o garfo na mão esquerda e a faca na direita, como manda a etiqueta. “O serviço é bom, mas a porção poderia ser mais generosa”, diz, quando estamos saindo.

Ricardo, mais conhecido como Fofão da Augusta. Foto: Facebook / Chico Felitti
Ricardo, mais conhecido como Fofão da Augusta. Foto: Facebook / Chico Felitti

A escritora Isabel Dias, minha mãe, a quem Ricardo apelidou de Jane Fonda, nos espera na entrada do prédio público, já com a senha na mão. A segunda via do RG é o primeiro passo para conseguir receber as heranças, de pelo menos R$ 35 mil, a que tem direito.

Menos de cinco minutos depois ele está na frente de uma atendente do órgão público, que tem dificuldade de colher suas digitais. O polegar, que Ricardo usou por décadas para manusear as tesouras com que cortava cabelos de pessoas famosas como Angela Maria, está envergado, e as articulações não permitem que fique reto. Depois de colher as digitais, movendo o aparelho para se adequar à posição dos dedos de Ricardo, a atendente o coloca contra um fundo branco para fazer a foto do documento. Ele olha a foto 3X4 e joga as mãos para cima: “É ficou, boa!”.

O documento de Ricardo ficaria pŕonto em cinco dias úteis. Dois dias úteis depois, recebo uma mensagem de uma desconhecida no Facebook. É uma moradora do bairro do Limão que me avisa que o viu no canteiro central da avenida Caetano Álvares, na Zona Norte. Ricardo parece desnorteado em um vídeo em que se pendura no galho de uma árvore e cai na pista.

Vou para a zona norte. Ando dois quilômetros antes de encontrá-lo, deitado num banco de concreto, cercado de lixo. Ricardo está em surto. Quebra uma garrafa de cerveja. Joga um tênis e diz coisas como “Você falou a palavra proibida!”. Ligo para o Samu. Duas horas depois, uma ambulância do serviço público chega ao local, sob chuva. Ricardo é levado para o hospital Mandaqui, um complexo com mais de 450 leitos, construído num terreno enorme, que parece um bosque.

Pelos próximos dias, Ricardo continua agitado. Ele fica atado à cama por faixas de gaze o tempo todo. Ao contrário do Hospital das Clínicas, onde passou meses sozinho no quarto, no Mandaqui ele tem dois companheiros. Um jovem que sofreu um acidente de moto e um homem da mesma idade que ele, 60 anos, que sofreu o segundo infarto da sua vida enquanto tocava violão.

As parentes dos outros pacientes começam a cuidar dele. Ajudam a dar comida em sua boca, conversam com ele. Cantam juntos. Nos bons momentos, ele retribui com ternura. “Ele me chama de mamãezinha, e ela, de prima”, conta uma delas quando o visitamos em 19 de novembro.

Nesse dia, recupero o prontuário que um funcionário do Hospital das Clínicas havia passado em sigilo. Entrego à equipe que cuida de Ricardo no Mandaqui. A médica agradece o prontuário, mas já adianta que um dos anti-psicóticos que ele tomava no HC, durante o período em que sua doença parecia estar sob controle, não está disponível ali.

Uma semana depois, em 1º de dezembro, voltamos ao Mandaqui. A infecção urinária que foi diagnosticada quando ele deu entrada pelo pronto-socorro está curada. Um dos seus companheiros de quarto, o do acidente de moto, recebeu alta, e ele está prestes a ser liberado. Uma ultrassonografia do rosto de Ricardo mostrou fraturas que parecem validar as histórias de espancamentos que ele sempre narrou. Mas nada que precisasse de cirurgia, segundo os médicos.

A assistente social do hospital afirma que sua internação na psiquiatria é provisória. Ele vai ficar lá até estar estabilizado, depois deve receber alta. Um membro do Ministério Público explica que é possível pedir na Justiça uma vaga definitiva em uma, e que a herança a que ele tem direito seja usada para custear sua estada num asilo. Enquanto falamos com a assistente social, Vânia manda uma mensagem. Conto que estamos no hospital, e pergunto se ela quer ver Ricardo. Ela diz que sim. Volto para o quarto e pergunto se Ricardo quer falar com um velho amigo. Ele diz que sim.

Saco o celular e faço uma videochamada para Vânia. Ricardo olha para o rosto feminino na tela do celular e diz “Eu estou falando comigo mesmo”.

Ela ri e pergunta: “Você ainda se lembra de mim, Ricardo?”.

Ele responde: “É claro! Você é o Vagner. Você é o amor da minha vida”.

“Sou eu. Ricardo, eu quero que você saiba que eu te quero muito bem. Eu vou te ver quando for para o Brasil, tá?” Vânia apresenta a ele Gaya, o cachorro maltês que a acompanha em suas caminhadas por Paris.

Fazia 20 anos que os dois não se falavam, após um término conturbado. Quando a ligação de vídeo termina, há duas trilhas de água que começam nos olhos de Ricardo e percorrem suas bochechas.

UM NOME NO FIM
Nos primeiros dias de dezembro, Ricardo é transferido para a ala de psiquiatria do complexo hospitalar. Lá, ele não está mais amarrado. Circula livremente, vê televisão, conversa com outros pacientes.

Um dia após o aniversário de 60 anos de Ricardo, Isabel vai visitá-lo. Leva pão com manteiga Aviação, o que ele tinha pedido de presente, e um livro de Carlos Drummond de Andrade Levou também uma bandeja das bolachas de mel decoradas com glacê, iguais às que deu de presente no dia de Páscoa, quando os dois se conheceram –mas dessas vez os biscoitos têm formatos de rena, de árvore de Natal e de Papai Noel.

A recepção não permite que ela entre com a comida na ala psiquiátrica. Ricardo está lendo a Bíblia quando eles se veem. Ela conta: “Quando ele me ve, me abraça e diz ‘Jane Fonda você não me abandonou’. Eu o abraço e digo que sinto muito por não ter conseguido vir abraçá-lo ontem.” Ele aceita o livro como presente: “É minha agenda, vou anotar todos os meus compromissos”.

Passada uma hora, Isabel precisa ir embora. “Me desculpo e digo que tenho que ir para trabalhar. Ele se aproxima, encostando a testa na minha, e me chama de ‘mamãe’, e pede que eu fique mais um pouco.”

Cinco dias depois, Isabel recebe uma ligação da assistente social do hospital Mandaqui. Ela diz que precisa de mais informações sobre Ricardo, que tecnicamente ainda é um desconhecido para o hospital, por mais que todos saibam quem ele é. As duas marcam de se encontrar na manhã da segunda-feira, 18 de dezembro.

O encontro nunca acontece. Na tarde do dia 15 de dezembro, uma sexta-feira, Ricardo Corrêa da Silva sofreu uma parada cardíaca, seis dias após completar 60 anos. Os médicos não conseguiram reanimá-lo, e uma necrópsia será feita para tentar apontar a causa exata da morte.

Seu corpo deve ser cremado e depositado junto às cinzas dos seus pais, em Araraquara. O hospital não tinha nenhum documento de identificação de Ricardo, mas toda equipe sabia o seu nome, pelo qual foi chamado até o fim.


“Fofão da Augusta? Quem me chama assim não me conhece”

O repórter Chico Felitti mergulhou por quatro meses no universo trágico e violento do morador de rua que São Paulo inteira conhece — mas que ninguém sabe quem é (publicado no Buzzfeed em 27 de outubro de 2017)

fofão
Arquivo pessoal

“Oi! O Fofão está no Hospital das Clínicas. Amputaram o dedo dele, que estava gangrenado. Ele tem surtos, quer bater em todo mundo e tem que ser amarrado porque arranca todos os acessos. E não diz coisa com coisa.”

Essa mensagem de Facebook piscou no celular durante o almoço do domingo de Páscoa deste ano, 16 de abril, na casa da minha mãe. Quem tinha escrito era uma analista de sistemas com quem eu nunca tinha conversado na vida, na vida real ou na virtual, mas que era minha amiga de Facebook há anos.

Fofão da Augusta é o apelido de um artista de rua que há mais de 20 anos entrega panfletos de peças de teatro na região da rua Augusta, no centro de São Paulo. Ele virou uma espécie de lenda urbana por causa da sua aparência: há alguma substância sob a pele do seu rosto que faz sua cabeça parecer duas vezes maior; suas bochechas pendem, quase soltas, como as do personagem que apresentava um programa infantil na TV aberta nas décadas de 1980 e 1990. Vem daí o apelido.

 Foto sem data, de um dos vários textos na internet sobre a "lenda" do Fofão da Augusta.

Foto sem data, de um dos vários textos na internet sobre a “lenda” do Fofão da Augusta.

Além das bochechas inchadas, ele desenvolveu uma papada, como se o excesso do conteúdo que foi injetado na face tivesse sido puxado para baixo pela gravidade. Seu nariz é muito fino, parece ter sido esculpido pela mão do homem. Já a boca é artificialmente carnuda. E geralmente está coberta por batom. Às vezes, ele cobre o rosto com pancake branco e desenha losangos coloridos em cima dos olhos quando sai para pedir dinheiro. Seus cabelos estão geralmente tingidos de loiro e num corte Chanel, na altura do queixo.

Da primeira vez que eu o vi, na rua Augusta, uns 12 anos atrás, era como se eu estivesse diante do Homem Elefante do filme de David Lynch. Já havia ouvido histórias sobre como ele era violento, sobretudo com quem o chamava pelo apelido, que detestava. Com o tempo, o susto se transformou em curiosidade e, cada vez que eu cruzava com ele, passei a acenar. Ele sempre cumprimentou de volta.

Não gosto de exposição

Em 2014, eu estava andando debaixo do elevado Costa e Silva, mais conhecido em São Paulo como Minhocão, quando trombei com alguém. Me agachei para pegar o fone de ouvido que caiu no chão, e, quando me levantei, dei de cara com o rosto desse homem. Fazia mais de 30°C, mas ele estava com uma camisa de tricô e um pulôver cor de abóbora. Sem pensar, disse: “Eu sempre quis entrevistar o senhor, topa conversar comigo?”. Ele respondeu muito educado, com uma voz fina e baixa que mal conseguia competir com o trânsito ao redor: “Eu sou muito humilde. Muito modesto. Eu não gosto da exposição”. E saiu andando.

Um perfil fake no Twitter.
Um perfil fake no Twitter.

Eu contei essa história no Facebook na época, e imagino que a pessoa que me mandou a mensagem no dia de Páscoa tenha visto o post. Foi na internet que a fama desse homem se alastrou, inclusive. A comunidade Fofão Sincero chegou a ter 20 mil membros no Orkut, e reunia histórias de pessoas que tinham interagido com ele. A que existe hoje no Facebook, Fofão da Augusta Sincero, tem 700 seguidores, e publica memes com as poucas fotos existentes — por exemplo, uma imagem dele com o rosto pintado de prateado recebeu a frase “Meu cu para você que atravessa a rua quando me vê”.

Perguntei para a amiga virtual se poderia vê-lo no hospital. Ela respondeu em segundos, e eu li alto na mesa do almoço de Páscoa:

“Ele está na enfermaria da cirurgia plástica como desconhecido, o quarto meu amigo médico não lembra, porque cuida da ala inteira. Mas pode chegar lá e dar as características dele.”
Avisei que ia para o hospital. Meu namorado não quis ir. Minha mãe, a escritora Isabel Dias, ofereceu-se para ir junto — parte por interesse profissional (ela passou três décadas administrando hospitais no interior de São Paulo, antes de se mudar para a capital), parte por curiosidade (ela cruzava com ele com certa frequência na vizinhança).

PACIENTE: DESCONHECIDO
O Hospital das Clínicas é o maior hospital da América Latina. É gerenciado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, e seus números são colossais. O orçamento anual supera R$ 1 bilhão. Há 2.200 leitos e 320 mil pacientes do Brasil inteiro são atendidos lá por ano. De janeiro a julho de 2017, 80 desses pacientes eram desconhecidos, afirma o HC — 52 foram identificados durante a internação. Nesse mesmo período, o HC atendeu 30 pacientes em situação de rua.

Há até um guichê distinto, menor, para quem vai visitar pacientes desconhecidos na entrada do hospital. O atendente pede nossos documentos. Em questão de segundos faz uma guia de reconhecimento de desconhecido, e libera nossa entrada. Subimos para o oitavo andar, onde fica a ala da cirurgia plástica. No corredor branco, há um relógio pendendo do teto enguiçado em quinze para meio-dia, por mais que sejam quase três da tarde do domingo de Páscoa.

Há dois enfermeiros de plantão. Entregamos a um deles a autorização que nos deram na portaria e explicamos que talvez possamos ajudar a reconhecer o paciente desconhecido.

Os enfermeiros dizem que ele está internado desde março, quando chegou transferido de um pronto-socorro de região da Lapa, de onde veio com uma infecção no dedo médio da mão direita. Horas depois de ter sido recebido no hospital, ele teve de passar por uma cirurgia de emergência. O dedo, usado para mandar para aquele lugar, foi amputado.

“Parece que ele teve uma queimadura que não foi tratada, deu infecção, tinha a presença de miíase”, disse um enfermeiro. Miíase é o termo médico para uma infecção causada por ovos de moscas que se chocaram dentro da pele. Dos ovos, nascem larvas, que se alimentam do hospedeiro. Ou seja, da carne humana. Os enfermeiros explicam que mais de 30 larvas viviam dentro do dedo que foi amputado.

Dizem que o paciente está bem agora porque havia tomado um sedativo mais cedo, depois de acordar agitado. Ele tem momentos de agressividade diários. Mas hoje deve ficar medicamentosamente calmo. O enfermeiro nos conduz pelo corredor. Na parede, há uma lousa afixada, com os nomes dos pacientes escritos.

Em meio a seis pessoas com nomes e sobrenomes, há um Desconhecido. A data de entrada dele é 24 de março. Ou seja, ele já está lá há 23 dias sem ninguém saber o seu nome.
O quarto é limpo, grande o suficiente para ter duas camas, só uma delas feita, e tem uma vista para o Pacaembu, um dos bairros mais nobres de São Paulo. Há no canto do quarto uma poltrona, onde está sentado um homem, cochilando, por mais que a TV esteja ligada no último volume. Bato na porta e peço licença.

Ele acorda, olha para Isabel e diz: “É a Edna!”. Ela diz “Eu não sou a Edna”. Abaixo o som da TV, ligada no “Domingão do Faustão”, e tento me concentrar na sua fala, mas é bem difícil entender com clareza as palavras que ele pronuncia. Não é só pela dicção, prejudicada pelo inchaço da boca e das bochechas. É que a maioria das coisas que ele diz não parece não fazer sentido. Por exemplo: “Porque ele tem que parar de caminhar sobre a dor, ficar, ai ele é dodói, e aceitar calor humano. Calor humano, lembra quando ficamos só eu e você no planeta Marte?”.

“JÁ CORRIGI A TRADUÇÃO DA BÍBLIA ANTIGA”
Isabel tira da bolsa as bolachas de mel decoradas com glacê que trouxe de casa, e entrega para ele. Ele tem dificuldade de abrir a bandeja, então ela o ajuda. Pega uma bolacha em formato de coelho e coloca na mão dele, a esquerda, que ainda tem cinco dedos. A mão direita tem um corte, que vai do meio das costas ao meio da palma, fechado por pontos. É onde ficava o dedo médio, que foi amputado. Ele leva a mão esquerda à boca. Agradece de boca cheia.

Sua mão direita, que teve o dedo médio amputado, no domingo de Páscoa, 16 de abril.
Sua mão direita, que teve o dedo médio amputado, no domingo de Páscoa, 16 de abril. Foto: Felitti

Pergunto se ele está precisando de algo. “J’Adore”, ele diz, com a boca cheia. J’Adore é o nome de um perfume da Christian Dior, uma das grifes francesas mais tradicionais. É um dos perfumes que Isabel usa. “Que chique!”, ela diz para ele.

Ele responde que só usa os melhores produtos quando penteia Cleópatra. Que Fátima Bernardes lhe dá banho. Que seu rosto está nas embalagens de tinturas Wella do mundo inteiro.

Ele convida Isabel para sentar na segunda cama do quarto, que está desocupada, e começa a analisar o cabelo dela, de longe. “Lembra que sua preocupação era the next coloration [A próxima coloração]? Now I have the answer [Agora, eu tenho a resposta]. I was trying to study your hair [Eu estava tentando estudar o seu cabelo]”.

Ele também fala algumas frases em francês. Outras em italiano. No meio de uma conversa, emenda uma língua na outra. Perguntamos onde ele aprendeu a falar as línguas. “Eu já corrigi erros de tradução da bíblia antiga. Quando a bíblia era transmitida através de mantras.”

Isabel o chama de Fofão seis vezes durante a conversa. Mas ele parece não se incomodar. E, no meio da conversa, é ele que dá um apelido para ela. Um apelido pelo qual vai chamá-la daqui por diante: Jane, porque acha que ela se parece com a atriz americana Jane Fonda. Uma hora depois de entrar no quarto do paciente desconhecido, ele está de mãos dadas com Jane. Termina o horário de visitas. Vamos embora. Ele se despede cantando em francês.

A música que ele canta é “Ne Me Quittes Pas”. Ou “Não me abandone”, em português

“VOCÊ ESTÁ MUITO FALASTRÃO”
No dia seguinte, saímos pela rua Augusta à procura de alguma informação sobre esse homem. A chapelaria Plas ocupa o número 724 da Augusta desde a década de 1950. Ela foi criada pelo alfaiate Maurice Plas, que morreu em julho de 2015, aos quase 90 anos. Desde a morte do patriarca, a chapelaria é tocada por Maurice Filho e Robert Plas, dois irmãos de 50 e poucos anos que têm mais de um metro e noventa e escondem o cabelo loiro com boinas. Robert diz que coleciona histórias sobre esse homem.

“Ele fala um francês impecável, fala italiano. Uma vez ele entrou aqui. Meu pai desceu e pediu que ele saísse. Ele ficou bravo e disse ‘Monsieur aujourd’hui vous êtes très bavard’. É uma coisa tão francesa de se dizer.”

“Vous êtes très bavard” significa “Você está muito falastrão”, ele explica, enquanto o irmão Robert entra da rua. E fica sabendo sobre quem estamos falando. “Ele foi um travesti na Europa, não foi? A gente via ele chegar e trancava a porta, porque ele chegava e não queria sair. Eu estava no computador e fingia que não via. Uma vez ele entrou aqui e deitou no chão.”

Atravessando a rua da Plas, o açougueiro Natal está há 41 anos na Augusta e diz ter visto a transformação física desse homem, sem nunca ter falado com ele. “Conheço ele há uma porrada de ano. Desde que ele era normal. Foi de repente, começou a detonar, detonar, foi os medicamentos mal colocados, né, meu? É assustador, né, meu?”

“Já vi ele catando lixo e sei que ele foi um profissional, assim, renomado de maquiagem”, diz Paula Francinete, que é cabeleireira na Augusta há 32 anos. Paula narra o dia em que ele entrou no seu salão. “Um dia vinha uma moça, era até dia de sábado. Ela entrou com tudo pedindo ‘Por favor, deixa eu entrar’. Ai entrou o Fofão atrás, dizendo: ‘Você estava com medo de mim por quê? Achou que eu ia te roubar?’”

Paula conta que, quando fazia curso de cabeleireiro, viu esse homem fazendo escova no cabelo de clientes com uma destreza “coisa de louco”. E nos dá um endereço onde devem conhecê-lo.

ESCOLA DE BELEZA
A Teruya é a maior escola de beleza da cidade. Ocupa um prédio de 12 andares na avenida Rio Branco, no centro. É um salão-escola com 400 alunos que fazem serviços estéticos por preços módicos, para treinar o que aprendem na teoria com professores. No primeiro andar ficam os cortes femininos. Um corte de cabelo custa R$ 4. O segundo andar é uma barbearia. A barba também custa R$ 4. E assim por diante — cada andar oferece um tipo de tratamento de beleza.

No quinto andar, encontramos Marli, uma asiática de meia idade e cabelos vermelhos, que no momento está ensinando cinco alunas a fazer luzes no cabelo. Ela é a decana da Teruya, disseram colegas, e certamente se lembraria do visitante. “Isso já faz uns quase 20 anos. Ele frequentou aqui. Eu só vi ele passeando, conversando com os alunos, dentro da escola. Eu lembro dele vagamente. Sabia fazer escova.”

Quando estamos saindo da Teruya, meu telefone toca. Atendo. É a assistente social do Hospital das Clínicas que está acompanhando o paciente desde a sua internação. Ela nos convida para conversar no dia seguinte.

“NÃO SE VÁ…”
É quarta-feira quando voltamos para o HC. Subimos ao oitavo andar, onde a assistente social ficou de nos encontrar. Ela chega e nos leva para uma sala com um ar-condicionado que parece enguiçado na temperatura mais fria.

Ela diz que nos chamou porque precisa de ajuda. Conta que o paciente se apresenta como Ricardo em momentos de sobriedade.

“É Ricardo mesmo o nome? Desde o começo tinha uma dúvida. Não tinha nada de comprovante, documento. Eu pedi para que vocês viessem para saber o que vocês sabem e a gente se unir.”

Uma de suas funções é descobrir quem são os pacientes sem nome, ela conta, com sua voz calma. Mas esse caso está se mostrando mais complicado que a média. “Ele já me expulsou do quarto. Eu até entrei em contato com os serviços de população de rua dos Jardins. Até fiz o que não costumamos fazer, mandei uma foto. Nada.”

Ela explica que o problema da infecção no dedo dele já foi resolvido, então a alta poderia vir a qualquer momento. Os médicos, entretanto, têm dúvidas se ele pode voltar a viver sozinho. “Pela avaliação da psiquiatria ele tem indicação de uma talvez internação. Da cirurgia plástica ele está praticamente resolvido, está de alta, não tem necessidade de estar internado.”

IMOBILIZADO
Como a transferência para um hospital psiquiátrico pode demorar, é possível que ele fique semanas ou até meses no HC. Mas a longo prazo ele não pode ficar ali. Saímos da sala da assistente social e vamos para a ala de internação da cirurgia plástica. Ricardo não está mais no quarto dois, aquele na frente do posto de enfermagem. O enfermeiro está sozinho, e explica que ele mudou de quarto. Está no último, mais perto da saída.

Entramos. Ricardo está nu, exceto por uma fralda geriátrica, e imobilizado na cama. Seus braços e pernas estão estendidos, com faixas de gaze cobrindo as mãos e os pés. Tiras de pano prendem os quatro membros à cama do hospital. Além disso, ele está com uma máscara cirúrgica sobre a boca. Ele foi imobilizado porque naquela manhã, dizem os enfermeiros, cuspiu numa auxiliar de enfermagem, depois de xingar uma médica. Eles dizem que podemos tentar falar com o paciente, mas que ele continua agitado. Isabel pede licença para tirar a máscara do seu rosto. Ela pergunta se seu nome é mesmo Ricardo. Ele diz que sim. Pergunto o que ele faz da vida.

“Trabalho. Eu vivo de esmola. A Paulista é igual casamento: começa no Paraíso e termina na Consolação. Eu fico em qualquer lugar que dá dinheiro. O dinheiro é a coisa mais importante da vida da gente.”

Em seguida, ele emenda: “Eu sou casado com a manicure do presidente. O Lula já morreu faz 25 anos”. Isabel envereda pelo assunto predileto dele. Pergunta se ele realmente acha que ela deveria dourar mais o tom do cabelo. Ele para por um segundo. E depois começa a falar calmamente. “Você mistura três gotas do blondor 772 com a tintura platinada 312. Depois bota uma bisnaga inteira de ampola azul, sua boba.”

A conversa sobre cabelos e hidratações dura quase meia hora, e depois ele vira a cabeça de lado, na direção da parede, o tanto quanto consegue com as amarras. E fecha os olhos. O tanto quanto consegue. Seus olhos não fecham completamente. As pálpebras de baixo são puxadas pelo peso das bochechas, em que ele injetou meio litro de silicone, como nos contou um médico, e não encontram as pálpebras de cima, mesmo quando ele dorme. Ou finge dormir, como é o caso. Decidimos que é hora de ir embora. Ricardo não quer visitas hoje. Avisamos em voz alta que vamos embora. Ele começa a cantar.

“Não se vá… Não me abandone, por favor…”

MORADA DO SOL
Continuamos perguntando a toda e qualquer pessoa com quem cruzamos sobre Ricardo. Uns poucos o conhecem pelo nome. Uma travesti da Augusta, de nome Suellen Sueca, me diz que os dois já se apresentaram juntos, na década de 1990, e que Ricardo tinha comentado que era do interior de São Paulo. Mas ela não se lembrava de que cidade.

fofão da augusta
Outra foto sem data

Na internet, só há anedotas. No blog A Palavra Final há um post em que a autora narra um encontro com Ricardo. Ela estava num dia ruim, chorando dentro do carro e ele chegou na janela para pedir dinheiro. Ao ver que a motorista estava chorando, ele a consolou, conta o texto. Mas o que me chama a atenção é um comentário nesse post. Um comentário feito por um homem chamado Alessandro Jamas.

“Sou amigo pessoal do Fofão e sei tudo sobre ele. Por isso, podem me perguntar o que quiserem.” Faço uma busca na lista telefônica e num cadastro de empresas e consigo um número de telefone registrado nesse nome. Ligo e o telefone não existe mais. Consigo também um endereço de e-mail. Escrevo para Alessandro pedindo uma entrevista. E a resposta não vem nas próximas horas. Nem nos próximos dias.

Acordo na primeira sexta-feira de maio e, antes de tomar café da manhã, recebo um e-mail da Isabel. O assunto é “Leia Isto”. No corpo do e-mail há só um link. Clico nele e sou levado a uma entrevista do Jornal de Araraquara de dezembro de 1999.

O título da entrevista é “Marcelo Corrêa é Reconduzido ao Destaque”, e a matéria fala sobre os hábitos de um escritor, colunista social e dono de salão na cidade interiorana. Aprendo com o texto que Marcelo Corrêa gosta de fazer ioga e abomina programas como “Big Brother Brasil”. De primeira, não entendo por que ela me mandou a notícia. Até chegar ao quarto comentário feito por leitores no site. Está escrito o seguinte: “Fofão, natural de Araraquara, filho do Sr. Frank E Sra Edite, ele tem dois irmãos um deles, Marcelo Corrêa é colunista social na morada do sol”.

Morada do Sol é um grupo de comunicação na cidade de 180 mil habitantes. A pessoa que fez o comentário não se identificou. Essa notícia nunca apareceu nas buscas que eu fiz pela internet. Busco mais fotos de Marcelo Corrêa. Não sei se estou sugestionado pela possibilidade de eles serem parentes, mas o homem das fotos se parece com Ricardo. As maçãs do rosto artificialmente altas. A pele, esticada na testa e flácida nas bochechas. O nariz afinado.

Consigo o telefone de Marcelo Corrêa. Ligo, ainda na sexta, e pergunto se o salão abre às segundas. Ele diz que sim. Que abre quando quiser, porque o salão funciona na casa dele.

Na segunda-feira cedo alugamos um carro e pegamos a estrada. O caminho de São Paulo para Araraquara dura quatro horas. Passa por Jundiaí, a Terra da Uva, Americana, a Cidade Princesa Tecelã, até chegar ao destino, que também é conhecido como a Morada do Sol.

O NOME DO DESCONHECIDO
Chegamos ao centro de Araraquara e não é difícil achar o salão de Marcelo Corrêa. Há uma placa de metal com o nome dele numa das casas mais antigas da cidade. Toco a campainha, e sou atendido pelo dono da casa, que veste uma camisa polo e calça justa cor de tijolo. Ele se parece muito com Ricardo, mesmo depois das plásticas, mas tem o cabelo ainda comprido e tingido de acaju.

“Você que ligou na sexta, né? E veio sem marcar. O que eu faço?”
Dizemos que podemos esperar ele ter um momento livre. Ele nos convida a entrar.

Foto: Chico F
Foto: Chico F

Passamos por um portão baixo de ferro e entramos no imóvel térreo. Não é exatamente como eu imaginava a casa de um colunista social. Tem uns 80 metros quadrados, preenchidos por papéis e móveis, muitos móveis. Marcelo pede que a gente espere na sala enquanto ele termina o corte de cabelo do gerente da Caixa Econômica da cidade. O escuro da sala está repleto de pinturas que parecem ter sido feitas por amadores e de antiguidades, que estão à venda. Uma poncheira de louça verde-bandeira custa R$ 300, diz a etiqueta colada nela. Há um aparelho de abdominal quebrado no canto.

Marcelo Corrêa da Silva.
Marcelo Corrêa da Silva.

Além das antiguidades, há uma cama hospitalar encostada na parede em frente ao sofá de plástico cinza onde nos sentamos. Sobre a cama está uma idosa. Ela está nua da cintura para cima, porque jogou no chão o cobertor. É Edite, a mãe de Ricardo, descobriríamos em poucos minutos. E também descobriríamos que ela completava naquele dia 78 anos.

Marcelo termina de cortar o cabelo em 15 minutos e nos recebe. Senta numa cadeira de escritório, que fica na frente de uma escrivaninha entulhada de papéis.

Conto que Ricardo está hospitalizado sem registro em São Paulo. Ele confirma que é seu irmão.

O desconhecido se chama Ricardo Corrêa da Silva, é cabeleireiro e maquiador e vai completar 60 anos em dezembro de 2017.

Marcelo diz que não é a primeira vez que pessoas vão até sua casa para conversar sobre Ricardo. Nem a segunda. Nem a quinta. Afirma que já retiraram o irmão com camisa de força daquela mesma sala. E que da última vez que Ricardo esteve em Araraquara, cinco anos atrás, Marcelo não o recebeu. Diz que sente medo e quis romper um ciclo de dor.

QUATRO IRMÃOS
“Você me desculpe, querido. Eu não tenho mais condições de ajudar, você me compreenda.” Marcelo cuida sozinho da mãe, por mais que tenha três irmãos. Além de Ricardo, Marcelo tem um irmão gêmeo, que está cumprindo pena por tráfico de drogas, ali mesmo em Araraquara. (Em outubro, esse irmão foi solto e passou a morar com Marcelo.) Há ainda um quarto irmão, Julio, que é sete anos mais novo que Marcelo e vive em São Paulo, de quem voltaremos a falar logo mais.

Ricardo (à esq., no alto), Marcelo, Flavio e Julio, em montagem de fotos feitas em diferentes anos
Ricardo (à esq., no alto), Marcelo, Flavio e Julio, em montagem de fotos feitas em diferentes anos

A família sempre foi normal, diz Marcelo. O pai, Franklin, era uma figura conhecida em Araraquara. Teve a primeira loja de rádios da cidade. Convivia com a elite local. Mas a bebida e as más escolhas de negócios fizeram a família perder quase tudo.

No começo da década de 1960, Franklin e Edite com Flávio (à esq.), Ricardo e Marcelo
No começo da década de 1960, Franklin e Edite com Flávio (à esq.), Ricardo e Marcelo

O pai morreu em 2005 e desde então a saúde da mãe, Edite, se complicou. Faz um ano que o Alzheimer se agravou e ela não sai da cama. Ricardo saiu cedo de casa. Por opção, terminou o ensino médio e foi ser cabeleireiro em São Paulo.

Ricardo, com 14 anos, à esquerda, com a avó paterna, Ida, os gêmeos e Julio, então com 5 anos.
Ricardo, com 14 anos, à esquerda, com a avó paterna, Ida, os gêmeos e Julio, então com 5 anos.

“Eu tenho 36 anos de cabeleireiro e aprendi muita coisa com ele”, diz Marcelo. “Papai chegou a dizer: ‘Marcelo você tem as coisas que seu irmão não tem: disciplina e trata seu cliente com respeito. Agora, o dom que ele tem, tsc, tsc, tsc’.”

Conforme os irmãos foram crescendo, a sexualidade virou uma questão na família. Marcelo é bissexual. Foi casado por cinco anos com uma mulher. Seu irmão gêmeo é gay, como Ricardo. Foi por causa da sexualidade que Ricardo se mudou para São Paulo, diz Marcelo, que ficou no interior estudando letras, mas ia passar temporadas com ele. Foi quando Marcelo começou a aprender o ofício que compartilha com o irmão mais velho.

“Eu atendi várias celebridades que conheciam ele. Alcione, Gloria Menezes. Atendi todas por conta da influência do Ricardo. Esse pessoal quando chegava em Araraquara, para fazer um show ou uma peça, me ligava.”

Ricardo, sem camisa, entre Marcelo (à esq.) e Flavio, em Araraquara, no começo da década de 1970.
Ricardo, sem camisa, entre Marcelo (à esq.) e Flavio, em Araraquara, no começo da década de 1970.

“SATISFEITA?”
Marcelo é uma celebridade local. Teve um programa de colunismo social na TV Mulher local, na década de 1990. Foi colunista de jornais araraquarenses. Hoje, divide-se em vários empregos. Marcelo também é massoterapeuta, se necessário. O segundo quarto da casa é ocupado por uma cadeira e uma mesa de massagem, e Edite dorme na sala mesmo. Marcelo tem muitas atividades. Dá aulas de ioga. Faz assessoria de imprensa. Também é filiado ao Partido Progressista, sigla de direita cujo maior expoente é Paulo Maluf, mas diz que abriu mão de sair candidato para ajudar os correligionários.

Enquanto conversamos com Marcelo, a mãe balbucia algo que não consigo entender. Marcelo se levanta, vai até a cama onde está Edite e pergunta se pode ler um poema que escreveu para ela. Dizemos que sim. Ele começa a declamar:

Marcelo termina o poema chorando, de mãos dadas com a mãe.

Quando estamos prestes a ir embora, pergunto a Marcelo se posso entrar num assunto pessoal. Ele diz que posso. Digo que ele e Ricardo têm a mesma boca preenchida, o nariz afilado e as maçãs do rosto proeminentes. Pergunto: “Você fez alguma coisinha na cara?”. Ele responde: “Coisinha? Vinte e três cirurgias. Eu fiz tudo o que você pode imaginar: queixo, pálpebra, minilifiting…”

Já na porta, Marcelo me dá o número de telefone do irmão mais novo, Julio, que mora em São Paulo. Mando uma mensagem para Julio, me apresentando e dizendo que seria um prazer conversar com ele para uma matéria sobre a vida do Ricardo. Conto que o Ricardo está no hospital, onde teve de ter um dedo amputado. Julio me responde que está fora de São Paulo no momento. E que volta a me procurar quando estiver de volta.

Marcelo e Edite
Marcelo e Edite

Parece que tomamos uma surra quando saímos da casa de Marcelo, os dois com dor de cabeça e exaustos. Mas ainda damos uma volta pelo centro de Araraquara. Queremos saber se os locais têm tantas histórias para contar sobre Ricardo quanto as pessoas da rua Augusta.

Falamos com idosas sentadas na calçada. Homens de meia idade jogando dominó na praça. Uma avó com sua filha de 45 anos e a filha dela, de 20. Mas nenhuma dessas pessoas diz saber quem é Ricardo Corrêa da Silva.

No bar do João Turco, um dos mais tradicionais da cidade, seis homens dizem que nunca ouviram falar de Ricardo. Até se lembram do seu pai, chamado de “Frank”, e conhecem Marcelo, “é claro”. Mas o nome Ricardo não traz nenhuma lembrança à tona. O próprio João Turco, que dá nome ao bar, diz que nunca ouviu falar dele.

“PERIGOSO E GAROTO DE PROGRAMA”
Antes de ir embora de Araraquara, passamos no cartório para pedir uma cópia da certidão de nascimento de Ricardo. Como ele nasceu há quase seis décadas, fomos avisados de que o processo de busca poderia levar alguns dias. Uma das pessoas que entrevistamos se ofereceu para passar ali na semana seguinte e, caso eles tivessem encontrado o documento no tomo de 1957, nos enviar uma cópia por e-mail. Ou é bem capaz que não encontrassem nenhum registro de Ricardo ali. É como se Araraquara tivesse esquecido desse seu filho.

Virgílio Abranches saiu de Araraquara há mais de 20 anos para ser jornalista. Hoje, é diretor do “Programa do Gugu” e só volta para a cidade algumas vezes por ano, para visitar a família. Mas se lembra bem da figura de Ricardo, quando nos encontramos numa padaria em Higienópolis e pergunto para ele se o homem da rua Augusta fez parte da sua infância em Araraquara.

“Eu me lembro que era na minha adolescência nos anos 1990. E é muito clara a imagem dele na rua. As pessoas dizendo que ele era perigoso e garoto de programa. Acho que ele não era tão deformado como ele é agora, mas já tinha o rosto mais estranho. Acho que ele já tinha começado a fazer as aplicações.”

Diz que via Ricardo na Avenida 36, uma das mais nobres da cidade, à noite, vestindo roupas de mulher. “Era um personagem caricato na cidade. Não era querido, era ridicularizado.”

Conto para ele que conversamos com várias pessoas em Araraquara. E que nenhuma delas disse conhecer o homem de rosto singular. “Araraquara é uma cidade conservadora. Chega alguém de fora, jornalista, acho que assusta. É um tema que é tabu. A cidade busca se orgulhar das pessoas. Muitos dos araraquarenses não têm orgulho do Zé Celso, por motivos que são óbvios. As pessoas têm preconceito, dizem que ele é louco, ou por ser homossexual. As pessoas querem se orgulhar da sua cidade, dos seus personagens. Eles não vão falar do Fofão da Augusta, que é marginalizado em várias frentes. Por causa do homossexualismo, da sua história. Eu acho que muita gente da cidade tem vergonha de dizer que ele é de lá. Dizem que não conhecem. O que é obviamente mentira.”

O IRMÃO DA BATGUÉL
Um mês após nossa ida a Araraquara, quando a situação de Ricardo já tinha mudado bastante, recebo uma resposta de Julio. O irmão mais novo pedia desculpa pela demora, e marcava de nos encontrar na praça de alimentação de um hipermercado no Itaim Bibi, bairro nobre de São Paulo. É lá que ele mora com a mulher e com as duas filhas.

Julio se formou em Geologia na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, mas não trabalha mais na área, porque não encontra emprego. Faz menos de um mês que ele começou a dirigir um Uber. Diz que não é só pelo dinheiro, mas também pelos contatos que consegue estabelecer com os passageiros. Ou, como ele mesmo diz, o networking. Seus cabelos fartos só estão começando a ficar brancos agora, aos 52 anos de idade. Ele sorri quase a todo momento, e aparenta ter dez anos a menos.

O irmão mais novo se senta numa mesa e explica por que não foi visitar Ricardo no Hospital das Clínicas. Diz que já o ajudou a receber alta algumas vezes. A penúltima foi em 2010 num hospital conhecido como Vermelinho, na zona norte da cidade, que é o campeão de reclamações do público na ouvidoria municipal. E a última foi em 2015, quando ele tinha sido internado em um hospital perto da represa de Guarapiranga.

“Não tenho condições de acolher. Não temos convivência familiar. Tudo o que o Ricardo tem hoje é opção dele. Ninguém disse ‘Vai pra rua’. Pelo menos eu posso te dizer o seguinte: eu jamais quis o mal do Ricardo, ‘Quero que esse cara se exploda’. Nunca! Pelo contrário. Eu sempre tive certa preocupação, certa ternura, curiosidade de querer entender.”

Ele conta que, durante a juventude, Ricardo era conhecido em Araraquara como Batguél, na pronúncia abrasileirada de Batgirl mesmo. Julio diz que não saber por que. Mas que por anos foi chamado de “O Irmão da Batguél”, conta, enquanto rabisca num guardanapo com a caneta que leva pendurada na camisa polo que veste. “Você pensa que é fácil estar num lugar público com o Ricardo?”

A HERANÇA DO TIO HEITOR
Julio conta sobre a família. Diz que Edna, o nome que Ricardo chamou Isabel no primeiro dia, no hospital, é o nome da tia dele. Uma tia que mora em São Paulo até hoje e, com 80 anos, continua ajudando a família de Julio de vez em quando. Por falar em dinheiro, da primeira vez que nos falamos, por telefone, ele mencionou um dinheiro a que Ricardo teria direito.

Pergunto que dinheiro é esse. Ele explica: é uma herança do Tio Heitor, irmão do pai dele, que morreu anos atrás. Os demais sobrinhos já pegaram sua parte.

“A do Ricardo está depositada em juízo, é só ele ir no Fórum de Araraquara.” De quanto estamos falando? “Na época eram R$ 35 mil. Deve ter uma correção hoje. Eu já me propus a administrar para ele o assunto. Por mais dificuldade financeira que eu tenha, é dele. Eu nunca pensei, jamais, em usar o dinheiro dele para qualquer coisa que não seja para ele. Mas eu sei a dificuldade que pode ser para ele ter o dinheiro na mão, cuidar do processo.”

Voltamos a conversar sobre a vida. Julio é um homem que entende muito de tênis. Aprendeu com a mãe, que na juventude era uma das melhores jogadoras de Araraquara. Ele conta que as duas filhas, hoje com mais de 20 anos, só encontraram Ricardo quando eram crianças. Que apertavam suas bochechas hipertrofiadas e ele ria. Minutos depois, Julio volta a falar do dinheiro a que Ricardo tem direito.

“A gente sabe que não foi sacado o dinheiro, embora a gente não tenha acesso. Uma vez que o dinheiro está depositado em juízo para ele, ninguém saca. É dele. Só se ele fizer uma procuração, autorizar, ou for ele mesmo. E o dado se torna sigiloso. Mas numa cidade como Araraquara o advogado vai lá, dá três passos e diz: ‘Não fui eu que consegui essa informação, o dinheiro não foi sacado’.”

SÃO PAULO, 1978
Antes de Julio nos procurar, continuamos visitando Ricardo. Já fazia um mês e meio que ele estava hospitalizado. Esperávamos a certidão de nascimento dele ser enviada pelo cartório, para que ele pudesse pelo menos ganhar um nome dentro do hospital, enquanto os médicos decidiam se ele precisaria ficar internado num hospital psiquiátrico ou poderia receber alta.

A cada visita, Ricardo parecia mais em contato com a realidade. Uma psiquiatra da equipe que o tratava disse que eles acreditavam ter encontrado remédios que conseguiam manter a esquizofrenia dele controlada. Os enfermeiros contavam que os episódios de agressividade aconteciam cada vez com menos frequência. Calmo, Ricardo nos contava sobre sua vida nos últimos anos. “A rua não é a sala da casa da gente. Tem que ter muito tato, muita sensibilidade.”

Ricardo não chegou a São Paulo como um morador de rua. Chegou em 1978 com uma mão na frente e outra atrás, aos 21 anos, mas logo conseguiu empregar as duas mãos num trabalho que lhe deu dinheiro e renome. A versão que corre entre mais de dez cabeleireiros do centro com quem eu conversei é que ele foi uma estrela do bairro nos anos 1980.

Marcelo, o irmão colunista social, disse que foi no salão Shirley’s que Ricardo começou sua carreira. Onde ele aprendeu a fazer uma das melhores escovas da cidade. Era lá também que ele, Marcelo, vinha fazer estágios quando passava as férias em São Paulo.

O RAPAZ BONITO QUE QUERIA FICAR MAIS BONITO
É uma tarde quente de maio quando chegamos ao salão Shriley’s, no Campo Belo. Para quem vê de fora, o salão é uma casa de bairro comum, com grades de metal descascadas e uma loja que vende condicionadores de pote e mechas de cabelo sintético. O barulho de aviões, decolando no aeroporto de Congonhas, a três quarteirões, compete com uns poucos secadores que estão ligados quando entramos.

Uma mulher de no máximo um metro e meio de altura, vestindo um jaleco branco, vem nos receber. É Marly, diretora do salão, em que trabalha há quatro décadas, desde que sua irmã, a Shirley que dá nome ao salão, fundou o negócio. Marly diz que se lembra dele, sim, mas já faz muito tempo. Ela pede para não ser gravada, mas diz que Ricardo era, nos anos 1980, um rapaz muito bonito. Um rapaz muito bonito que queria ficar muito mais bonito. Ela conta que ele vinha trabalhar com curativos cirúrgicos na testa. Chegava com a boca dilatada, de aplicações. Mas chegava. Não costumava faltar.

Uma outra mulher, chamada Maria, aproxima-se ao ouvir o nome de Ricardo. Diz que se lembra bem dele, está lá há 37 anos. Era manicure na época e lembra bem dele. Tinha um cabelo chanel, lindo. Era elegante e tinha muitas clientes fiéis.

As duas nos convidam a conhecer o lugar. O salão tem o desenho arquitetônico de um formigueiro: é formado por várias casas interligadas por corredores estreitos, passagens que não estavam no projeto original. No total, o Shirley’s engloba quase aquele quarteirão inteiro. Foi grande no passado. Tem mais de 50 anos de funcionamento e chegou a ter 150 profissionais. Hoje, são cerca de 50. A maioria das cadeiras e móveis de fórmica vermelha estão vazios e há salas inteiras sem uma viva alma dentro.

Paramos em uma das poucas salas em que há clientes. Umas três mulheres de cabelos pintados de um loiro intenso e uma cabeleireira de cabelos já brancos, Marina, que trabalhou com ele por anos, quando os dois eram aprendizes. Marina diz que ele era lindo, um excelente profissional e quando contamos que ele está internado, sem lugar para ir, ela fica emocionada. Mal acredita na imagem atual dele quando mostramos fotos.

“Fala para ele, eu admirava tanto ele, como pessoal e como profissional. Fala se ele lembra de mim. Eu ainda estou aqui, a Marina antiga. É que agora eu estou de cabelo branco.” As ex-colegas pedem para fazer uma foto, e nos fazem prometer que vamos mostrar para ele. Dizem que Ricardo saiu de lá porque foi convidado a trabalhar em outros salões. Ninguém se lembra os nomes desses salões, entretanto.

BONECAS DE LOUÇA CHINESAS
Isabel mostra a foto para Ricardo na nossa próxima visita, dias depois. Ele diz reconhecer Marina. “Ela está diferente, né? De cabelo branco.”

Por minutos ele parece se lembrar do Shirley’s. “Onde fica a Shirley, Shirley mesmo, reduziu muito o número de funcionários.”

Fala também de um outro que chama Casarão, na Bela Vista, onde diz ter trabalhado por dez anos com Nadir Petini. O Casarão de fato existiu. Era um salão sofisticado na rua dos Franceses, a poucas quadras da avenida Paulista. Nos anos 2000, a casa virou uma agência de publicidade. Hoje, está desocupada, mas muitos vizinhos se lembram de Ricardo.

O auge profissional é um período fresco na sua mente. Ele contou cinco vezes sobre como, no Casarão, ele maquiou pessoas famosas. Pessoas muito famosas como a atriz Gloria Menezes. Ricardo diz que Ana Maria Braga, que na época trabalhava na TV Record, era uma cliente frequente. Falamos com a assessoria de imprensa de Ana Maria Braga. Ana Maria pediu para ver fotos de Ricardo, para tentar se lembrar dele. Depois que enviamos duas fotos de Ricardo tiradas nas últimas semanas, não houve mais resposta.

Durante esse período de auge profissional, entre a metade dos anos 1980 e a metade dos anos 1990, Ricardo morava numa quitinete na avenida São João, no Centro. Todas as paredes e o teto eram pintados de preto. Namorava um homem chamado Wagner. Os dois se injetavam silicone no rosto porque queriam parecer bonecas de louça chinesas. Amigos dizem que Wagner era a cópia de Ricardo, ou vice-versa. A transformação física pela qual Ricardo passou foi proposital, ele mesmo nos diria mais para frente. Wagner hoje atende por Babette, e mora em Paris, diz a família e amigos de Ricardo. Não conseguimos encontrá-lo.

DOS SALÕES PARA A RUA
O mergulho de Ricardo das luzes dos salões de beleza para a rua é nebuloso. Sabe-se que por anos ele foi sócio num salão colado à estação de metrô Vila Mariana, onde hoje funciona uma lanchonete especializada em frango frito. Amigos contam que ele levou um calote da outra dona do lugar, e ficou sem ter onde morar.

É aí, no meio dos anos 1990, que Ricardo começa a pedir dinheiro na rua e nasce o apelido Fofão da Augusta. Trocou a escova dos salões de beleza pelos folhetos de teatro que distribui, e passou a fazer em si mesmo a maquiagem que fazia no rosto dos outros.

No início, quando foi para a rua, Ricardo começou a se maquiar de palhaço. E a juntar gente ao redor dele. Ele montou na rua um verdadeiro circo.

Mais de dois meses depois de eu ter enviado um e-mail para ele, Alessandro Jamas, o homem que se dizia poeta e amigo de Ricardo num comentário na internet, me responde. Diz que seria um prazer falar sobre os anos que passou com Ricardo.

“A GANGUE DO RICARDO”
Alessandro é professor de gramática na Fundação Casa, a antiga Febem. Tem 38 anos, mas aparenta ter menos. Bem menos. É magro e tem a constituição física de um menino. Um menino que fuma um cigarro atrás do outro, enquanto se move muito rapidamente. Antes de ser professor, ele trabalhou com Ricardo nas ruas de São Paulo. “Eu tinha 21 anos. Morava com os meus pais. Eu vinha me maquiar e ficar com essa gangue do Ricardo que ficava nas ruas da Paulista pedindo dinheiro para peça de teatro.”

O grupo chegou a ter 25 pessoas, ele conta. Ricardo e um amigo inseparável, de nome Carlos, pintavam-se de palhaço. Os outros jovens se vestiam com fantasias, e se dividiam em grupos de duas ou três pessoas, pelas ruas próximas à Augusta. Diziam que estavam levantando dinheiro para montar uma peça de teatro. Uma peça de teatro que angariou dinheiro por mais de dez anos, mas nunca foi montada. “Então, não tinha espetáculo. O show era ali, na hora. As caras pintadas, os figurinos. Eu usei um vestido de noiva da minha mãe, todo de renda Guipir, era um show bonito.”

No fim do dia, o grupo voltava a se encontrar. Eles não usavam drogas, me disseram Alessandro e outros três ex-companheiros de trupe de Ricardo. A não ser que você considere fast food uma droga.

“A gente tinha que faturar dinheiro para comer no McDonald’s. Não tinha esse lance de crack que tem hoje. A gente gastava com McDonald’s, churrascaria. Era se encontrar para comemorar, falar o que fez no dia. Depois o Ricardo saía, ia comprar maquiagem. Outros iam comprar livros.”

Como um menino criado numa família de classe média alta em Carapicuíba foi parar na rua? Assim como Ricardo, Alessandro foi empurrado para a rua por causa de problemas de aceitação da sua homossexualidade. “Os meus pais, eles tinham a mentalidade bem difícil para lidar com essas questões, o que eu acho bem comum. Minha mãe era de 1935, meu pai queria que eu fosse militar, umas coisas que não combinam comigo.”

“DO INTERIOR CREPÚSCULO TRISTONHO”
Dois anos depois de começar a se apresentar na rua, Alessandro não tinha mais onde morar. Sua mãe morreu e o pai não queria ele por perto. Juntou-se de vez ao grupo, que morava em pensões no centro de São Paulo. Dividiu quarto com Ricardo. Passou mais dois anos com eles até que, por diferenças artísticas, se separou. Alessandro queria parar de simular uma peça de teatro e se dedicar à poesia. Ele passou então a declamar poemas, sozinho.

Até que um dia conheceu a artista plástica Regina Romani. Ela estava dentro de um táxi e Alessandro estava declamando esse poema, de Fernando Pessoa, na rua:

A artista plástica ficou emocionada e se ofereceu para pagar a faculdade dele. Alessandro prestou Letras na faculdade UniPaulistana e foi aprovado. Fez os primeiros anos de faculdade enquanto morava na rua.

“Dois ou três colegas da sala me olhavam com nojo. Porque eu ia muito maltrapilho, muito sujo. Sem banho, sem escovar dente.”

Alessandro se formou e conseguiu um emprego como professor substituto em escolas do Estado, ganhando cerca de R$ 2.000 por mês. Quando nos encontramos, ele estava prestes a ser despejado porque só tinha sido atribuído três aulas por semana e seu salário, de R$ 700, não bastava para pagar o aluguel da quitinete em que morava, na rua São Caetano.

Quando estamos indo embora, Alessandro se despede dizendo que vai ficar tudo certo. Porque, enquanto andava para o largo do Arouche naquela manhã, pensou em Fernando Pessoa. E, quando ele pensa em Fernando Pessoa, alguma coisa boa acontece na sua vida.

CARLOS ANTONIO DE BARROS, O GUGU
Três dias depois, estou indo para o HC quando tropeço com uma das peças mais fundamentais para entender a vida de Ricardo. Pedindo dinheiro no cruzamento da rua da Consolação com a rua Dona Antonia de Queirós está um homem muito magro, cabelos loiros jogados para trás com gel e maquiagem de palhaço no rosto. É Carlos.

Carlos, o melhor amigo que por 20 anos trabalhou com Ricardo na rua, e é o único do grupo (que juntava até 25 pessoas) a continuar pedindo dinheiro maquiado.
Carlos, o melhor amigo que por 20 anos trabalhou com Ricardo na rua, e é o único do grupo (que juntava até 25 pessoas) a continuar pedindo dinheiro maquiado. Foto: Chico F

Carlos Antonio de Barros tem 41 anos e é conhecido como Gugu, pela semelhança que já teve com o apresentador da TV. Outras pessoas o conhecem como o namorado de Ricardo, porque eles passaram duas décadas subindo e descendo a rua Augusta juntos, todos os dias. A primeira coisa que pergunto é se ele e Ricardo eram um casal.

“Não, não, não. Temos um relacionamento de pai e filho. Ele é como um pai para mim. Eu nunca tive absolutamente nada com ele. Nós íamos à sauna de vez em quando, se divertir, fazer umas besteiras. Se divertir para encontrarmos namorados. Afinal, nós dois somos gays. Íamos nas boates maquiados. A gente brilhava. [A drag queen] Silvetty Montilla colocava a gente no palco [das boates].”

Faz 21 anos que eles trabalham juntos, na rua. Distribuem panfletos que pegam nos teatros da praça Roosevelt e aceitam doações em troca. Carlos conta que cada um deles chega a tirar R$ 200 em um bom dia. “Eu acredito que a gente tenha ajudado a melhorar bem a cultura de São Paulo. A gente colocou muita gente na plateia.”

Mas hoje Carlos está praticamente aposentado. Ganha uma pensão de um salário mínimo por mês, porque tem uma doença incurável que prefere não discutir, e mora numa pensão no centro de São Paulo. Carlos sabia que Ricardo estava internado. Disse que não o visitava por não saber como, e também porque não era bem tratado.

“Quando ele tem os surtos, a polícia leva ele para os manicômios, os hospitais psiquiátricos. Ele sai melhor, mas daí para de tomar medicamentos.”

Foram ao menos sete internações, contando com esta, do Hospital das Clínicas. A maioria delas aconteceu, diz Carlos, por violências que Ricardo sofreu na rua. Faz dois anos que os dois se afastaram. Não moram mais juntos, porque Ricardo quer privacidade. Mas conversam quando se encontram. Há muito carinho na distância que guardam. “Ele é duro na queda, sabe? Muitas vezes já pediram para ele tirar o silicone do rosto, chamando ele de deformado, de Fofão. Mas eu acho meu amigo bonito, entende? Apesar de todas as deformações e espancamentos que ele sofreu, ele é uma pessoa bonita.”

FAMOSOS & ODIADOS
No fim da conversa, dou R$ 50 para Carlos. Ele diz que com o dinheiro não precisará trabalhar pelo resto do dia. Que deixou de gostar da rua, onde as pessoas são odiosas. Ele usa a palavra odiosas. “Nós somos famosos mesmo, muita gente nos odeia.”

Enquanto Ricardo coleciona casos de hostilidade, física e verbal, algumas pessoas nutrem por ele uma admiração a distância. É o caso de Aline Prado, uma produtora de moda que usa roupas da passarela no dia a dia e é amiga de estilistas famosos. Ela foi a chefe de Ricardo por um breve período nos anos 2000.

Em 2008, Aline era uma das produtoras da festa Vai!, que acontecia no clube Glória, uma antiga igreja do Bixiga que foi transformada em boate. Ela contratou Ricardo para trabalhar na festa. “Nessa época ele estava com o hábito de ficar aqui, nesse cruzamento da Consolação, na rua do cemitério. Um dia eu passei, ele estava lá, eu fiquei com a idéia de chamar ele pra participar da festa.”

Convidou Ricardo para ser host, para receber as pessoas que chegavam na casa noturna. Ela conta que Ricardo apareceu no horário combinado. “Ele pediu para a gente pagar antes, porque acho que ele tinha medo de a gente não pagar o que prometeu. Eu paguei. Ele só bebeu coca, porque ele não bebe. Foi muito legal para ele, por mais que ele estivesse inseguro, teve uma felicidade de ele estar fazendo uma coisa artística, recebendo as pessoas.”

Foto tirada no extinto Clube Glória
Foto tirada no extinto Clube Glória

As imagens de Ricardo recebendo festeiros são as fotos que aparecem no Google quando se busca por Fofão da Augusta. Nelas, Ricardo está maquiado. As maçãs do seu rosto estão mais cheias do que hoje em dia, pintadas com blush. A boca dele, aumentada por injeções de silicone, está vermelho-sangue. Ele desenhou uma segunda sobrancelha, cobrindo com glitter a original. O nariz dele está com a ponta pintada de azul. Parece feliz. “A gente teria feito isso mais vezes. Logo na sequência essa festa acabou, e eu procurei ele e não achei mais.” Ricardo trabalhou em três festas. Recebeu gente como o estilista Alexandre Herchcovitch.

“EU NÃO SOU DESCONHECIDO”
O começo da vida de Ricardo Corrêa da Silva foi em 9 de dezembro de 1957, na casa de número 3 da rua São Bento, em Araraquara, no interior de São Paulo.

É o que descubro quando abro o envelope e me deparo com a certidão de nascimento que chegou pelo correio. O documento que faltava para o paciente Desconhecido ganhar um nome no Hospital das Clínicas.
No dia seguinte, vamos para o hospital ao meio-dia, antes do horário de visita, que começa às duas da tarde. De novo para a fila de pessoas que visitam desconhecidos no Hospital das Clínicas. Espero que uma última vez. Fazemos o ziguezague em câmera lenta da fila de pessoas que estão lá para visitar desconhecidos e recém-nascidos ainda sem nome.

A assistente social nos recebe. Sorri ao ver a certidão, diz que o documento vai ser suficiente para registrar Ricardo e pede que a gente vá até o setor de registros, no quarto andar. No setor de registros, funcionários dizem que o registro dele não pode ser feito ali. Passamos por três setores diferentes até terminar no pronto-socorro. Faz dez anos que a emergência do Hospital das Clínicas é referenciada. Ou seja, não tem uma porta aberta para atender quem está doente. Só aceita casos mais graves encaminhados de Unidades Básicas de Saúde ou de outros hospitais. Ainda assim, há dezenas de pessoas deitadas em leitos na sala que dá acesso ao hospital. Há um zunido constante de aparelhos funcionando e um murmúrio de pessoas doentes falando baixinho.

Foi nesse pronto-socorro em que Ricardo deu entrada, dois meses antes. O atendente atrás do balcão pega a cópia da certidão de nascimento. Volta com o registro de Ricardo.

Depois de duas horas andando para lá e para cá, subimos com uma nova ficha de registro do paciente, para ser entregue à enfermagem. E com oito pulseiras de plástico, em que o nome de Ricardo está escrito. Chegamos ao quarto. Uma enfermeira corta com uma tesoura sem ponta a pulseira em que estava escrito DESCONHECIDO, no pulso de Ricardo, e coloca no lugar uma com seu nome completo. O quadro de pacientes no corredor também passa a mostrar seu nome completo.

Ricardo Corrêa da Silva não é mais um desconhecido. Ao menos não para o Hospital das Clínicas.
Voltamos ao hospital mais duas vezes depois que Ricardo é identificado. Ele está cada vez mais calmo. Conversamos sobre como ele se sente depois de ter deixado de ser um desconhecido lá dentro “Eu não sou desconhecido. Eu sou muito popular. Eles fazem isso porque querem dispôr de mim.”

Pergunto se ele conhece o apelido que ganhou na cidade. “Me chamam de Fofão, né? Fofão da Augusta. Quem me chama disso não me conhece, eu sou muito mais que o Fofão da Augusta.”

Sim, ele continua achando que algumas pessoas (e a Polícia Federal) estão atrás dele. Mas aos poucos ele se abriu para falar sobre sua vida. Conta sobre o período mais obscuro da sua vida em São Paulo, quando foi despejado do salão em que trabalhava, na Vila Mariana, e acabou na rua. “Quando veio a reintegração de posse eu tive de guardar tudo na minha pensão. O rapaz se fez passar pelo meu filho, roubou tudo o que eu tinha. Eu perdi tudo o que eu tinha no salão.”

“TODO MODELADO”

A família afirma que Ricardo foi despejado quando sua doença mental se agravou e ele deixou de ser capaz de administrar uma vida, quanto mais um negócio como o salão que tocava. Em internações anteriores, médicos diagnosticaram Ricardo com esquizofrenia aguda. Um relatório médico que obtive com funcionários do HC afirma, em 3 de maio, que houve “uma melhora do quadro psicótico”, mas pede cuidados com ele, que tem “uma doença de base de evolução crônica”.

Nesse dia, ele parece no controle. Sóbrio. É a primeira vez que ele comenta as alterações estéticas que fez no rosto. “Eu tenho muitas aplicações de silicone, plásticas no nariz, plástica na orelha, plástica na pálpebra. Eu ganhava bem e era vaidoso, queria ficar todo modelado. Era silicone para uso médico. Daí, de tanto dormir em cima, caiu. É que eu sofri um espancamento na delegacia de polícia.”

A essa altura, pergunto de novo se ele autoriza que sua história seja contada numa reportagem. “É claro! Desde que não exagerem a minha importância no mundo”, ele responde. Em seguida, ele pede para fazer uma foto com Isabel. Ele está vestindo um casaco bege que era dela quando a abraça no corredor. Posa mandando beijos embaixo de uma placa em que está escrito Cirurgia Plástica. Ficamos duas horas conversando.

Ricardo na ala de cirurgia plástica do HC em 23 de maio, quando pediu para ser fotografado.
Ricardo na ala de cirurgia plástica do HC em 23 de maio, quando pediu para ser fotografado. Foto: Chico Felitti

Os enfermeiros e a assistente social dizem que os episódio de agressividade cessaram há semanas. Mas ele dificilmente poderia viver desacompanhado. O mesmo relatório médico afirma que o paciente é “sem capacidade de autocuidado ou administração de medicação por conta”. Ou seja, Ricardo não pode ficar sozinho.

“AQUI NÃO TEM NINGUÉM COM ESSE NOME”
Mas logo ele estaria sozinho de novo. Dia 16 de maio de 2017 caiu numa terça-feira. Era um dia em que íamos visitar Ricardo às duas da tarde, depois de almoçar. Mas antes do almoço eu recebo uma ligação de um número não identificado no meu celular. É a assistente social do hospital, avisando que Ricardo havia recebido alta. Ele tinha sido levado naquela manhã para um abrigo do Estado. A vaga abriu da noite para o dia, e foi conseguida pelo Centro de Referência Especializado de Assistência Social, ela conta. Ricardo, diz a assistente social, foi num carro do HC e está bem lá. Podemos visitá-lo.

Ela passa o endereço do Centro de Acolhida chamado Esperança, na rua Cardeal Arcoverde, em Pinheiros. É uma moradia pública em que são acolhidas pessoas com necessidades. Dependentes de crack e alguns distúrbios psicológicos. Lá ele teria o auxílio para continuar o tratamento.

Ligo para o abrigo. Escuto da atendente: “Não tem ninguém aqui com esse nome. Não deu entrada. Não está aqui”. Volto a falar com a assistente social, digo que ele não está lá. Ela diz que vai averiguar o que aconteceu. Duas horas depois, a assistente social do hospital entra em contato. Ricardo havia sido levado , num carro do Hospital das Clínicas, para o abrigo em Pinheiros. Mas, enquanto os funcionários do lugar estavam fazendo seu registro, ele virou as costas e foi embora. Os funcionários não podiam obrigar Ricardo a ficar contra a sua vontade. E sua vontade foi voltar para a rua.

CRACOLÂNDIA
Quando estava no hospital, Ricardo nos disse o nome dos hotéis em que costumava se hospedar. Todos ficam na região da Cracolândia, o pedaço mais degradado do centro de São Paulo, onde viciados em crack andam em hordas. Passamos duas semanas visitando os hotéis e pensões onde Ricardo morou. Mas não o encontramos.

Até que numa tarde de sexta chegamos ao hotel Alfama. O dono é um homem grande, com uma regata do Corinthians apertada na altura da barriga e muitas correntes prateadas ao redor do pescoço. Ele diz que Ricardo está hospedado lá, paga R$ 25 toda noite por um quarto de solteiro. Nunca quis fechar um pacote mensal, que lhe garantiria um desconto de R$ 200. E que tem de deixar a chave na portaria, porque batidas da polícia são frequentes.

“Se eu mexesse com droga, eu tenho 48 anos, ia deixar droga aqui? Ia esconder e depois vender. Tem uns que depois pedem desculpa, outros não. Não tem pra onde ir. Juntei um dinheirinho. Hoje o hotel é meu. Mas já tomei tiro aqui. Já fui preso. Já me levaram. Tinha arrastão, levaram todo mundo.”

O dono do hotel diz que Ricardo fica num quarto do primeiro andar, e nos deixa entrar. Subimos as escadas. A primeira porta que vemos tem um cifrão grande desenhado com giz. E frases como Não bata sem dinheiro e “Money for me, sex for you”, ou “Dinheiro para mim, sexo para você”, em inglês.

Foto: Chico

A porta do quarto de Ricardo fica num canto e não tem número. Bato. Chamo. Bato mais uma vez. Um grunhido vem de dentro do quarto. Dois minutos depois, Ricardo abre a porta. Diz que estava dormindo.

Foto: Chico F

“Desculpa. É que eu sou preguiçoso e dorminhoco”. Há duas garrafas de guaraná em cima da cômoda, o único móvel do quarto, além da cama. As garrafas estão destampadas e cheias de um líquido amarelo que desconfio ser urina. O quarto não tem banheiro.

A cama tem o contorno do corpo de Ricardo puído. As paredes têm manchas de sujeira onde se encontram com o chão e de mofo onde se encontram com o teto.

Um cheiro azedo paira no ar parado. Isabel diz que existe um dinheiro esperando por Ricardo. Ele diz que vai pensar nisso depois. Ricardo aceita as roupas que levamos pra ele e pede licença, diz que vai dormir.

Por que uma pessoa que tem R$ 35 mil para serem retirados em uma só visita vive com o dinheiro que ganha na rua? Carlos, o melhor amigo de Ricardo, diz que ele tem medo de burocracia por causa de uma fobia que desenvolveu da polícia.

“Eu sempre digo para ele, Ricardo, tire seus documentos e vamos ao INSS. Como ele tem problema psiquiátrico, ele poderia estar recebendo o mesmo benefício que eu, mas ele não quer. Ele não tira RG há muito tempo. Ele tem uma coisa assim que diz que se ele tirar RG vai preso”. Isso porque, Carlos conta, durante um surto Ricardo saiu andando com jóias de uma casa de penhor do Conjunto Nacional, na avenida Paulista. Não se lembra exatamente de quando ocorreu, mas diz que o Notícias Populares, um tabloide que existiu entre 1963 e 2001, fez uma reportagem sobre o ocorrido.

Passo duas tardes no acervo do Notícias Populares, lendo notícias como “Gangue surrou menina porque ela é gostosa”, sobre uma menina de 14 anos que apanhou de outras pelo que o jornal chama de frescura, e “Pacto com capeta ferrou minha vida”, sobre um carroceiro que dizia ter cortado sua própria mão direita e a atirado para um cachorro porque o demônio mandou. Na quarta hora do segundo dia, quando estou prestes a desistir, aparece em branco e preto na tela da máquina de microfilme um rosto conhecido. Mais jovem e mais disforme, mas conhecido. A manchete da edição de 16 de junho de 2000 é “Passou a mão no colar para ficar um gato”.

Notícias Populares de 16 de junho de 2000
Notícias Populares de 16 de junho de 2000

A matéria sobre Ricardo ocupa quase uma página inteira do jornal, e tem três fotos. Em uma, Ricardo está sem camiseta, na delegacia. A segunda foto é de uma gargantilha de ouro com que ele saiu da loja de penhores na avenida Paulista, dizendo que precisava se arrumar porque naquela noite se casaria com Carlos. A terceira foto é um close do rosto de Ricardo, visto de baixo para cima. As bochechas estão mais inchadas, projetadas. Os olhos estão quase fechados.

A notícia narra o ocorrido. “Depois de ficar se admirando no espelho com as três joias, avaliadas em R$ 3.500, o cara de pau mandou que a porta da joalheria fosse aberta, porque ele precisava ir embora. Os PMs Ramos e Rodrigo, que prenderam Fofão, disseram que ele teve a coragem de parar na frente de uma cabine da polícia, no cruzamento com a rua Augusta, e ajeitar a gargantilha. Isso depois de fazer xixi na porta do Banco do Brasil, com todas as pessoas que passavam na Paulista vendo ele com o bilau de fora.”

Então o medo de Ricardo tinha um fundamento. Mas esse fundamento não era mais válido. Com a ajuda de um advogado, levanto o caso de Ricardo e descubro que o processo foi arquivado em 27 de setembro de 2011 pela juíza Maria Cecilia Leone, da 10ª Vara Criminal, depois de a pena prescrever. Ou seja, Ricardo não é mais procurado pela polícia.

“ELE QUER FICAR SOZINHO”
Passo a encontrar Ricardo todas as noites, por algumas semanas. Ele trabalha na frente do shopping Cidade de São Paulo, na avenida Paulista, altura da rua Peixoto Gomide. Distribui os panfletos de teatro que pega na praça Roosevelt. Fica lá das oito, nove da noite até uma, duas da manhã. Vai e volta a pé.

Ele é simpático, me reconhece e trata bem, mas parece não querer falar sobre o crime que prescreveu ou sobre a possibilidade de ter uma vida mais tranquila com a herança. Não sou só eu que tento me aproximar de Ricardo e sou educadamente rejeitado. Encontro Carlos na rua Augusta dias depois da alta de Ricardo. Pergunto se os dois voltaram a se encontrar. Ele diz que se encontraram no parque Mario Covas, na Paulista. “Ele não quer mais morar comigo. Ele quer ficar sozinho. Ele tem 60 anos já. Nós brigamos algumas vezes, também. Mas ele é meu amigo.”

É véspera do dia dos Pais e estou no cinema quando recebo uma mensagem de Julio, o irmão de Ricardo que mora em São Paulo. Ele escreve: “Boa noite! Minha mãe faleceu. Araraquara amanhã, velório e enterro”.

Edite morreu dois meses depois da visita que fizemos à casa onde ela morava com Marcelo, aos 78 anos. Com a morte da mãe, vão para os filhos a chácara da família e alguns outros bens que sobreviveram à dilapidação do patrimônio dos Corrêa. Ou seja, há outra herança agora em nome de Ricardo, que precisa assinar o inventário para que a partilha seja feita. Respondo para Julio que vou procurar Ricardo. Nos dois dias seguintes não o encontro na Paulista nem no hotel onde ele esteve hospedado.

São oito da noite de uma segunda de agosto quando saio da casa da minha mãe em direção à minha. Estou descendo a Augusta e vejo um conhecido sentado no ponto de ônibus. É Ricardo. Ele olha para mim e pergunta: “E a Jane, vai bem?” Digo que sim. Pergunto se ele não quer ir vê-la. Ele balança a cabeça positivamente. Subindo o quarteirão que falta para a casa da minha mãe, conto que seu irmão me procurou. Para dizer que sua mãe morreu. Ele para de andar e diz: “Isso faz tempo”.

Entramos na casa de Isabel. Ela serve os mesmos biscoitos de mel que levou no domingo de Páscoa. Ricardo os come com café, enquanto os dois falam sobre a cor do cabelo dela.

Ricardo Corrêa da Silva no dia da nossa primeira visita, 16 de abril de 2017.
Ricardo Corrêa da Silva no dia da nossa primeira visita, 16 de abril de 2017.

Em nenhuma de suas conversas, Isabel contou a Ricardo que também se trata no HC. Aos quase 60 anos, ela descobriu que tem uma doença cardíaca crônica tão rara que só recebeu nome 20 anos atrás. E que o contato com Ricardo despertou algo nela. “Sua história fica remoendo na minha cabeça e chega a me dar taquicardia quando penso em tudo o que ele viveu. Volto para casa abatida toda vez que o encontro”, diz minha mãe. O medo a impediu de sair de casa por alguns dias. Ela começou a ver um psiquiatra, que receitou antidepressivos. “Parece que os comprimidos impedem que a sensação de inutilidade e tristeza se instalem em mim. No fundo, acho que percebi que nada do que eu tenha passado se compara a essa história de horror com um personagem que é a cara de São Paulo.”

Minha mãe e Ricardo estão sentados na sala da casa dela, de onde saímos para encontrá-lo pela primeira vez, quatro meses antes. Até que, quando termina a xícara de café, ele se levanta e diz: “Com licença, eu preciso trabalhar.” Isabel pergunta se ele está bem. “Eu tô bem, eu tô bem de verdade”, ele diz. E sai. Rumo à rua Augusta.

Com informações de Chico Felitti, BuzzFeed e R7

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