O ativista russo Maxim Lapunov é o primeiro homossexual que desafiou as ameaças de morte das forças de segurança da Chechênia para denunciar publicamente as torturas e a perseguição em massa dos gays nessa república do Cáucaso na Rússia.

Chechênia
O ativista russo Maxim Lapunov fala à imprensa nesta segunda-feira (16) em Moscou, sobre como foi perseguido e sofreu agressões na Chechênia por ser gay (Foto: Getty)

Lapunov decidiu dar um passo adiante e declarar publicamente que foi vítima de perseguição e tortura, depois que a denúncia formal que apresentou há três semanas ao Comitê de Instrução obteve como resposta prática a inação das autoridades russas.

Oriundo da cidade siberiana de Omsk, Lapunov diz que está disposto a retornar a Grozni, a capital da Chechênia, para identificar os que o torturaram e localizar as prisões secretas onde os homossexuais supostamente foram mantidos durante os últimos meses.

“Até agora, o principal argumento das autoridades para se recusarem a investigar era a ausência de testemunhas. Pois agora, eles já têm a primeira testemunha”, afirmou à Agência Efe nesta terça-feira Igor Kochetkov, diretor da Rede LGBT da Rússia.

“Há outros gays que denunciaram torturas, mas só ele estava disposto a declarar publicamente. O que o diferencia é que ele não tem família na Chechênia. Os familiares dos gays chechenos são reféns das autoridades e, se há denúncia, sofrerão represálias”, explicou Kochetkov.

Na opinião do diretor da Rede LGBT da Rússia, isso não diminui nem um pouco a coragem do gesto de Lapunov, “pois ele também sofreu ameaças”.

“É um homem muito corajoso e tenho certeza de que ele não será o último. Isto ajudará muitas pessoas a encontrar força interior para dar este passo”, disse Kochetkov, que cifrou em “várias dezenas” os chechenos que recorreram durante os últimos meses ao anonimato para denunciar abusos na república muçulmana.

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O ativista russo Maxim Lapunov fala à imprensa nesta segunda-feira (16) em Moscou, sobre como foi perseguido e sofreu agressões na Chechênia por ser gay (Foto: Getty)

Agressões

Lapunov relatou em abril ao jornal “Novaya Gazeta” como foi detido em um shopping em Grozni em 16 de março de 2017 e mantido sob custódia por quase duas semanas, o que se transformou no estopim das denúncias sobre as torturas e assassinatos de homossexuais na Chechênia.

Em um primeiro interrogatório, Lapunov foi acusado de instalar-se na Chechênia para “seduzir as crianças chechenas” e foi ameaçado para que delatasse outros gays com os quais mantinha relações.

“Não deveria haver gente como você no mundo” e “você sequer é um ser humano”, eram algumas das frases gritadas por seus torturadores, que o agrediram com cassetetes de borracha em um porão encharcado de sangue, conforme o seu relato.

Lapunov também viu agressões contra um conhecido seu em outra cela, um checheno, que foi detido graças às informações que ele mesmo proporcionou a seus captores, e entrou em contato com outro russo, que também foi detido por ser gay.

“Durante todo o tempo em que estive no porão, eles traziam novos detidos constantemente. Ouvi como eles eram agredidos. Pelas conversas, compreendi que todos eram suspeitos de serem homossexuais”, afirmou Lapunov, que acrescentou que, em alguns casos, para arrancar as confissões dos detidos, os guardas utilizavam descargas elétricas.

Confissão em vídeo

Finalmente, o ativista russo foi colocado em liberdade e, “mesmo que mal pudesse andar”, foi obrigado a gravar em vídeo uma confissão na qual reconhecia ter mantido relações homossexuais, teve que colocar suas impressões digitais em uma pistola e recebeu cerca de 100 euros e uma passagem de ônibus com destino a Pyatigorsk.

“Eles me advertiram que se eu denunciasse o ocorrido, algo muito ruim aconteceria. Eles me encontrariam, abririam um processo penal, me julgariam e me mandariam para a prisão. Ou simplesmente fariam represálias contra mim e contra a minha família”, contou Lapunov.

De fato, em maio, várias pessoas de origem caucasiana se apresentaram em seu povoado, na região de Perm (Montes Urais) e, depois disso, Lapunov soube que um gay russo que tinha sido detido e libertado na Chechênia, havia sido assassinado posteriormente.

Kochetkov advertiu que as detenções e torturas continuam, e lembrou o desaparecimento em agosto do famoso cantor checheno Zelimkhan Bakayev, detido em Grozni simplesmente por ser gay.

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Protesto (foto: Getty)

Doutrina oficial

O ativista russo afirmou que, apesar das numerosas provas de violações dos direitos humanos, “as autoridades se negam a investigar e a abrir processos criminais”, já que a doutrina oficial é que “na Rússia, não há problemas com os gays, ninguém os persegue nem os discrimina”.

Kochetkov qualificou de “espetáculo” a recente visita à Chechênia da Defensora Pública Tatiana Moskalkova, e ridicularizou a proposta do Comitê de Instrução do país de realizar um exame médico em Lapunov seis meses depois que ele havia sido torturado.

“Reconheço que não esperávamos a selvageria da qual somos testemunhas na Chechênia. Não se pode esconder mais que os homossexuais não estão protegidos e que podem fazer com eles o que quiserem. Se a Rússia não faz nada, recorreremos às instâncias internacionais”, afirmou Kochetkov.

O diretor da Rede LGBT da Rússia estimou em “dezenas” os gays que sua organização conseguiu retirar da Chechênia, e vários deles foram levados para o exterior por sua própria segurança, segundo a imprensa, para países como o Canadá.

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Protestante em Berlin (foto: Getty)
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