‘Afeminofobia’: o desafio de ser autêntico em um mundo que cultua o macho

Por Rita Abundancia para El País

O coletivo homossexual ainda tem que lidar com uma regra nunca dita: você pode ser gay ou lésbica mas sem dar bandeira

19274998_1824999174495741_8137392174599597642_n

“Já conseguiram seus direitos, podem se casar e até adotar crianças. O que mais querem? Por que precisam fazer de sua sexualidade uma bandeira e chamar tanto a atenção?”. “Mais um ano em que precisaremos aguentar essas bichas loucas em seus trios elétricos soltando purpurina. O que isso tem a ver com o fato de uma pessoa gostar de outras do mesmo sexo?”. São comentários comuns nas datas próximas à comemoração do Dia Internacional do Orgulho LGBT. Ou como me disse um taxista certa vez, em Madri, “Eu respeito os gays. Não tenho nada contra eles, mas por que precisam se vestir de forma tão ridícula?”.

A afeminofobia, o desprezo por aquelas pessoas que saem de seus papéis de gênero. Ou seja, contra os homens afeminados e as mulheres masculinas, é a prova definitiva que confirma que os homossexuais não são tão respeitados como se acredita, uma vez que contém uma regra nunca dita, mas interiorizada por muitos: você pode ser gay ou lésbica, mas sem dar bandeira. Uma regra seguida não só por membros do mundo hétero, mas também por alguns do universo homossexual, que ainda estigmatizam seus camaradas menos discretos.

Os sites de contatos entre homossexuais, como o Grindr, são a prova concreta de que a aversão a quem dá bandeira está mais viva do que nunca. Um artigo da revista Vice, chamado Afeminofobia, racismo e discriminação nos aplicativos de encontros gays, recolhe expressões retiradas desses aplicativos como: “Busco caras muito masculinos. Se alguma vez você percebeu que é gay não vou me interessar”. “Se você não admite que dá bandeira vá a um psicólogo. Não tem nada de ruim, mas não venha brigar comigo por te falar o que todo mundo pensa”. “Somente caras muito machos”, “passivos não” e “não quero passivos”. Tempo é dinheiro e o objetivo de muitos dos que usam esses aplicativos é conseguir uma transa, de modo que não há espaços para sutilezas, é preciso ser claro e objetivo para encontrar o que se busca no menor tempo possível.

O autor do artigo conta como foi encarregado de fazer um vídeo de uma festa gay para “caras muito machos”. “Era um evento em que o público gay assistia a um espetáculo erótico, em que homens seminus se beijavam e se tocavam. Gravei o show e o ambiente da sala. Quando mandei o vídeo o organizador da festa me disse: “Gostei muito, mas você filmou dois veadinhos que eu mataria”.

Um estudo publicado pelo site Gay Times revela que mais da metade dos gays não afeminados (57%) acha que seus colegas afeminados dão uma reputação ruim ao coletivo homossexual masculino. O relatório, assinado por Cal Strode, entrevistou 280 gays do Reino Unido e Califórnia e comparou as opiniões dos que se autodenominavam straight-acting (não afeminados) com o resto. Os dados mostraram conclusões importantes entre o coletivo straight: esses sofreram 33% a menos de episódios de homofobia na escola do que seus companheiros afeminados e 35% deles concordavam com essa afirmação: “Eu me identifico mais com a comunidade heterossexual do que com a gay”.

A afeminofobia, entretanto, não é vivenciada somente pelos homossexuais e pode afetar também os heterossexuais, os bissexuais e as transexuais, sempre e quando não cumprirem com seus papéis de gênero. O relatório Abrazar a diversidade, elaborado pelo Instituto da Mulher em 2015, mostra que 20% dos estudantes espanhóis foram testemunhas de agressões homofóbicas e transfóbicas nos colégios. Uma violência que não ocorre somente contra meninos e meninas que manifestaram sua orientação sexual, mas contra aqueles que unicamente apresentam comportamentos próprios do outro sexo.

19260329_1826266657702326_5778923773511281205_n

A ‘afeminofobia’ sempre precede a homofobia

Aitor Sebastián, de 25 anos (Madri), ator e vendedor de uma loja, foi estuprado aos 15 anos por um homem heterossexual. “Sofri a agressão porque era afeminado e dava para perceber que eu era gay. Ainda hoje saio à rua e ouço coisas que as pessoas dizem de mim, pelo meu modo de andar e meus gestos, até mesmo crianças. Tenho um irmão gêmeo que é heterossexual e quando éramos pequenos sempre o invejava porque era normal e ninguém tirava sarro dele. Quero dizer com isso que a pessoa nasce afeminada, não é algo fingido que interpretamos 24 horas por dia, como muitos acreditam. É possível exagerar, especialmente quando se está com outros gays, mas é parte de sua personalidade. Além disso, sem as reivindicações feitas pelos veadinhos afeminados no início da luta pelos direitos do coletivo gay, hoje em dia não teríamos visibilidade. Foi graças a eles que agora a homossexualidade começa a ser vista como algo normal e cotidiano, e não graças aos que dissimulavam e se comportavam como heterossexuais”, diz Sebastián, que reconhece, “ainda tenho amigos complexados por serem afeminados, que lutam para que os outros não notem”.

Juan Fran, 28 anos (Córdoba), homossexual, morador de Madri e funcionário de uma agência de comunicação, afirma que “a afeminofobia, além de ser uma homofobia interiorizada, esconde também um certo grau de misoginia e machismo, já que denuncia e ridiculariza tudo o que é relacionado ao lado feminino”. Juan, assíduo no ambiente gay de Chueca, acredita que esse coletivo está se voltando ao conservadorismo. “A maior parte das festas são para ‘homens masculinos’, tentam fazer com que o modelo do gay se distancie muito da ‘bicha louca’ e do ‘veadinho’ e que seja um homem branco, ativo, macho, de classe média-alta e com um trabalho estável”.

Segundo Marta Pascual, sexóloga, psicóloga e responsável pela assessoria sexual do COGAM (Coletivo de lésbicas, gays, transexuais e bissexuais), em Madri, “de fora dizemos que ‘dão bandeira’ pessoas que não se comportam de acordo com seu sexo designado, independentemente de sua orientação sexual. Na sexologia, entretanto, entendemos que somos pessoas sexuadas construídas no modo masculino e/ou feminino. Existem estruturas e processos que nos moldam com caracteres sexuais primários, secundários e terciários (papéis de gênero), que produzem em cada pessoa uma mistura única em diferentes níveis de sexuação: genético, neuronal, cognitivo, emocional, condutual, erótico. Isso significa que todos e todas nos desenvolveremos a partir de uma intersexualidade, e que nadamos nela. O que implica que eu posso ser uma mulher que cognitivamente funcione de uma forma masculina (orientada a resultados) ou feminina (orientada a processos); com um repertório emocional mais sensível e empático (mais próprio das fêmeas), ou mais determinante e resolutivo (mais comum nos machos), com uma gama de comportamentos sociais e eróticos mais inclinada a um sexo do que a outro; e um aspecto, gestualidade e expressão mais ligados ao feminino ou ao masculino. E no caso dos homens acontece exatamente o mesmo. Depois parece que não há lugar à simulação e ao fingimento. É somente uma forma de viver o ser sexuado”.

A afeminofobia não é exclusiva dos homossexuais homens. As lésbicas também a sofrem, mas de maneira diferente. Segundo Marta Pascual, “possivelmente entre os gays se vive com maior sentimento de traição e se castiga com uma determinação mais masculina, já que falamos de homens. Entre as mulheres pode ser mais ou menos incômoda, mas considero que tem menos presença”.

Ana, 44 anos (Madri), engenheira de telecomunicações, se define como “uma mulher com um lado masculino muito acentuado. Como me visto, em meus gestos e em meu comportamento”. Ainda que fique bem distante da imagem de “caminhoneira”, Ana precisa suportar essas expressões sutis de afeminofobia disfarçadas de conselhos bem-intencionados por parte de familiares e amigos. “Amiga, se você se arrumasse um pouco mais, ficaria incrível. Você é tão bonita”, “sempre de calça, amiga você tem pernas lindas. Mostre-as!”, “por que você não se maquia um pouco”, “já experimentou deixar o cabelo comprido?”. “Uma vez fui a uma oficina de expressão corporal livre e a professora me recriminava o tempo todo que eu não explorava mais minha feminilidade, em uma atitude de mulher sexy e desejável”, comenta Ana. “Eu diria que entre lésbicas há menor repúdio ao ‘dar bandeira’ do que no coletivo gay. Eu me sinto realmente questionada entre as mulheres heterossexuais; porque com os homens, com os que me relaciono em meu trabalho, no mundo do esporte e socialmente, nunca tive problemas. Ainda que a filosofia “tudo bem, você é lésbica, mas sem dar bandeira e nos apresente suas namoradas como amigas” ainda impere em muitas esferas. Por exemplo, na familiar”.

19420457_1827611524234506_3678715166836131307_n

Por Rita Abundancia para El País
Fotos: facebook.com/StopPlumofobia

Anúncios