A ditadura social de gênero do corpo

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Nem sempre identidade e prática caminham juntas.  Existem identidades reais? Até que ponto podemos ser autênticos e até que ponto existe uma ‘venda’ social de nós mesmos? O autor alega que um “eu verdadeiro”  repousa em questões da sexualidade e, sendo assim, que essa verdade é, na realidade, um somatório de identidades.  Falar sobre ser homem, por exemplo, pressupõe que exista uma heterossexualidade intrínseca onde, em verdade, as identidades são baseadas mais por negações de determinadas qualidades e atributos do que por afirmações.   Desde a socialização infantil, qualquer alusão ao feminino é rechaçada para que o indivíduo do sexo biológico masculino não se comporte de uma tal maneira que é considerada feminina, como por exemplo, não poder chorar diante de situações angustiantes.  Chorar torna-se, portanto, algo do feminino, algo atribuído ao feminino, uma atribuição de gênero que é taxativa: ser / fazer / se comportar como ‘mulher’ é algo depreciativo.  Fica claro quando comparamos adjetivos como, ‘meninão!” e “princesinha”, sendo o primeiro como algo destemido, valente, forte e ousado e o segundo como frágil, pueril, doce, inábil e desprotegido.  Fica claro, segundo o autor, que diante das necessidades de determinada cultura, indivíduos criam e determinam quais serão os caminhos que seus descendentes deverão ‘optar’, sendo o mais indicado para os ‘meninos’ a violência, a agressividade, o espírito desbravador, valente e destemido.  Uma masculinidade, portanto, como uma identidade muito frágil e que precisa de confirmação o tempo todo.  Uma identidade que necessita a aprovação dos outros homens, onde se estabelece esse status de homem pelos seus pares.  Une-se a esses adjetivos o “ser” masculino.  Analisa-se, então, quais os marcadores sociais das diferenças: gênero, orientação sexual, raça, etnia, classe social, geração e nacionalidade.  Fica como uma pergunta pertinente: Homem que deixa de ser heterossexual, deixa de ser homem? Enquanto meninos são ensinados a praticar esportes, meninas são doutrinadas desde pequenas a serem cuidadoras, iniciando esse projeto social através do cuidado com suas bonecas e princesas da Disney.  Mulheres são mais cuidadoras?  É genético? Inato? Há, portanto, um binômio estabelecido:  Entre honra e vergonha.  Ser homem é ter pênis? Ser heterossexual? Ser ‘macho’? Que menino é esse que cresce, nesse projeto social, onde ficam alheios ao ‘cuidado’ – são cuidados mas não são ensinados a cuidar, e não cuidam.  Estabelece-se, então, o que já sabemos: Mulheres pertencentes ao ambiente doméstico, que abraçam e dão beijinhos, e os homens, atores do espaço público, que vivem de dar porrada, e que não se voltam ao cuidado do privado.  Homens viris sem a capacidade de demonstração de afetividade.  Para Welzer Lang, meninos de fato aprendem a ser homens e, dessa forma, acontece uma regulação dos afetos.  A criança é patrulhada, vigiada e regulada onde se busca a diminuição da afetividade para não se perder virilidade. Trata-se da própria doutrinação da criança para se transformar numa espécie de Rambo – impiedoso, desprovido de afetividade e valente. Há um processo de sociabilidade onde meninos passam por um intenso processo de aprendizado onde a rivalidade entre eles é posta em cheque como forma de superação e outro processo de dominação sobre as mulheres também acontece.  Fica claro, portanto, que o debate sobre gênero é político até na academia.  Percebe-se, por exemplo, o preconceito de homossexuais contra outros homossexuais, uma espécie de homofobia internalizada. O homossexual afetado, entendido como frágil e vulnerável, é entendido como pertencente ao âmbito do que é feminino, onde há também justamente uma desvalorização do feminino em detrimento do masculino.  Nota-se, então, a construção do “bom gay”.  O bom gay seria aquele que é fiel, monogâmico e ‘ativo’.  Quem ocupa a posição passiva é mulher e ‘viado’.  Aquele homossexual que fica ou tem muitos parceiros (ocupando a posição passiva) é taxado de promíscuo e afetado, repetindo novamente a mesma desvalorização do feminino.  Abre-se, então, uma discussão no que concerne a relação ao que é público e privado embasada numa dupla moralidade.

            Quais são, portanto, os estereótipos masculinos aos quais os meninos se espelham? Seria o super-herói uma possível referência? A começar pelos corpos dos super-heróis, sim.  Há notadamente, em nossa cultura contemporânea, uma valorização do corpo masculino como ostentação de virilidade.  O super-homem, por exemplo, se pararmos para pensar novamente em marcadores sociais das diferenças, é quem nesse cenário?  Alto, forte, jovem, branco e heterossexual.  Além de trabalhador, honesto, romântico e ‘ético’.  Um corpo extremamente simbólico que cria um modelo que gera e determina padrões a serem seguidos.  Qual a utilidade desse corpo, como ele deve funcionar e como ele deve agir no mundo?  Qual o comportamento desejado por esses homens / indivíduos que buscam esse corpo? Com questionamentos como esses, resta uma única resolução para esses indivíduos: um destino chamado masculinidade ‘normal’.  O homem que diz não ter prazer no ânus, é um homem que de fato não tem prazer no ânus?  Ou são homens que buscam afastar de si todo e qualquer elemento que remeta a uma possível  posição passiva? (já que o ânus é um buraco passível de penetração)  O toque retal como exemplo, é ainda um tabu. Enquanto mulheres são invadidas todos os dias por exames ginecológicos, homens ocupam posições rígidas em relação ao exame de toque.  Trata-se de uma construção de uma sexualidade entendida como masculina em detrimento da feminina que é penetrável.  Essa posição pressupõe certa heterossexualidade que é, como visto, marcador da masculinidade e do ‘ser homem’.  Igualmente, fica como questão o comportamento de ‘Pegging’ entre homens heterossexuais. Pegging se trata do desejo que homens heterossexuais tem de serem penetrados mas que não tem desejo por outros homens.  Fica como conclusão a ideia desse corpo masculino interditado. Para que o indivíduo possa se sentir mais ‘homem’.  Algo que remete a um lugar social, a uma barreira socialmente construída que deve manter essa identidade imaculada.  Nesse sentido vemos centenas de homens lançarem mão de tatuagens, hormônios e outros tipos de ornamentos, condutas e interferências em seus corpos e seus comportamentos com a finalidade de serem capazes de atingir esse lugar masculino, onde irão performar do modo mais artificial possível com a intensão de criar / teatralizar e atribuir a si tal identidade de forma a atingir êxito pessoal e, assim, sociais também.  Diante dessa ótica da doutrina do masculino, diante dos aparentes privilégios que possuem os homens, e diante da ideia desse homem que sofre do próprio machismo que o constitui, alguns autores chegam a mesma conclusão: o sexo frágil não é o “feminino” mas sim o homem, o masculino e o macho que é justamente o próprio homem oprimido pela condição de opressor.

Referências Bibliográficas
BLAY, Alterman Eva.  ATISTELLA, Carlos. Feminismos e masculinidades. Ed Cultura Acadêmica.
WELZER-LANG, Daniel.  A construção do masculino: dominação das mulheres e homofobia.
BEIRAS, LODETTI, CABRAL, TONELLI & RAIMUNDO.  Gênero e super-heróis: o traçado do corpo masculino pela norma.  

Joaquim Leães de Castro

Joaquim Leães de Castro é Psicólogo Clínico com Especialização em Terapia Cognitivo-Comportamental e Pós-Graduado em Sexualidade Humana.  Experiência com atendimento clínico a adultos e casais.  Atualmente Coordena no Hospital Rocha Maia serviço de Psicoterapia e Psicoeducação Sexual destinado aos usuários do SUS do município do Rio de Janeiro.

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