Esqueça tudo (ou quase) que você acha que sabe sobre sauna gay

"Entrei pela primeira vez em uma sauna gay do Centro de São Paulo e descobri que os homens que frequentam esses lugares são bem diferentes do que imaginava"

Por Rafael Gonzaga

Entrei pela primeira vez em uma sauna gay do Centro de São Paulo e descobri que os homens que frequentam esses lugares são bem diferentes do que imaginava

sauna gay babado
Foto meramente ilustrativa

Quando eu tinha uns seis ou sete anos, uma sauna gay foi inaugurada perto da casa de um tio meu que morava em Botafogo, no Rio. Lembro disso vagamente porque meus outros parentes homens adoravam tirar sarro dele por conta da nova vizinha. Eu demorei muito tempo para entender o que era o lugar em questão, mas nunca entendi muito bem a graça das piadas sobre a sauna. Na verdade, eu nunca soube de fato o que era aquele lugar.

Possivelmente, nem você. Poucas pessoas, além dos frequentadores mais assíduos, entendem o funcionamento de um local desses. Pois bem: resolvi visitar uma sauna em São Paulo e tentar me inteirar dessa coisa de um monte de desconhecidos pelados suando no mesmo cubículo.

É importante frisar que as saunas existem há muito mais tempo do que as piadas de gosto duvidoso que o Casseta & Planeta (e meus tios) fazia semanalmente sobre o tema. Existem registros de homens buscando sexo com outros homens em saunas desde o século XV. No século XI a.C., a prática já rolava em banhos públicos na Grécia.

Na realidade, todo mundo tem um amigo que já foi ou que sempre vai a saunas, por mais distante que esse universo pareça da gente. Na semana que antecedeu minha própria ida, ouvi diversos relatos de pessoas próximas a mim e descobri que amigos meus já estiveram em saunas gays de lugares que vão desde Ipanema até Londres.

Antes de procurar um estabelecimento para ir, conheci Pedro, sujeito experiente no assunto, que topou ser meu guia. A sauna que ele frequenta fica no Largo do Arouche, no centro da cidade. Eu só conhecia o lugar por conta do extinto humorístico Sai de Baixo e de uma música do Criolo, mas descobri depois que, na real, o lugar é uma referência geográfica gay. Inocente, eu. O entorno é repleto de opções voltadas ao público LGBT, indo desde saunas e sex clubs até padarias e restaurantes gay friendly.

Após entrar na sauna, ganhamos cartões para abrir nossos armários, onde deveríamos guardar toda nossa roupa. Dentro de cada armário havia duas toalhas bem curtinhas: enroladas na cintura, elas ficavam acima dos joelhos – e eram as únicas coisas que as pessoas usavam para cobrir o corpo. Pedro me levou para um tour pela sauna e o lugar parecia um labirinto (à noite, perdi as contas de quantas vezes fiquei desorientado lá dentro).

Acho que uma das coisas que muita gente associa a saunas é que elas são imaginadas como a última opção de quem procura sexo. O senso comum é o de que só quem não consegue ninguém na balada ou no Grindr se submete à sauna. Mas isso é um erro. Primeiro porque existe todo tipo de pessoa dentro da sauna. Tem muita gente jovem e bonita, digna de estampar a capa da Men’s Health. As aparências lá vão desde professor universitário até motorista de caminhão – mas que podem, é claro, não ser nem uma coisa e nem outra. É um ambiente tão heterogêneo do ponto de vista estético que chega a se tornar homogêneo do ponto de vista de que, lá dentro, somos todos apenas corpos. Em segundo lugar, a sauna não parece ser nem de longe a última opção para as pessoas que frequentam. A impressão que tive foi o contrário: ela é a primeira, e a melhor, opção para quem busca sexo de forma tão despretensiosa. As pessoas vão lá porque é prático. Você não precisa se preocupar em marcar local, arrumar um horário, descobrir se o parceiro curte rock ou sertanejo, se é de humanas ou de exatas. Por conta disso, o sexo que rola ali dentro é uma experiência quase anárquica.

Enfim: Pedro foi me guiando pela sauna e apresentando os ambientes como quem apresenta a casa para os amigos. Porém, quando entramos na dark room (basicamente uma sala onde você, ou pelo menos eu, não consegue enxergar um palmo a sua frente), foi um pouco impossível continuar seguindo ele. Pedro foi andando com extrema segurança naquele escuro absoluto, enquanto eu fiquei pra trás tateando o nada com medo do que poderia brotar na minha frente. É uma sensação estranha: quando se descreve um lugar onde você não enxerga nada e onde um monte de mãos começa a pegar em você, parece que se está descrevendo uma cena de Silent Hill – mas a sensação não é ruim.

Aliás, parece loucura a quantidade de paradigma social que é quebrado na sauna. Todo o protocolo tradicional que as pessoas no mundo externo usam para transar é abandonado lá dentro. Por exemplo, na dark room, ninguém parece se importar se a pessoa com quem está brincando de cinco contra um é o Ryan Gosling ou o Dedé Santana. E eu nem saberia dizer se um ou outro estavam lá naquele momento. A subversão dos nossos padrões estéticos é gritante. Comentei isso mais tarde com Pedro e ele respondeu com naturalidade: “já peguei muita gente aqui na sauna que não pegaria lá fora. Na real, o que importa aqui é ter o pau grande. Rolando isso, você já vai fazer sucesso”.

Em algum momento da noite, não consegui achar mais o Pedro e resolvi dar uma circulada para tentar achar alguém que topasse falar comigo. Fui para uma espécie de sala de cinema, onde passava um filme pornô com um monte de caras pasteurizados fazendo um sexo mecânico e fajuto. Quase todos os lugares estavam ocupados e quase todo mundo estava tocando punheta. Tentei parecer normal: sentei em um dos locais vazios e comecei a tocar também.

Um cara sentado do meu lado começou a passar o pé na minha perna e, como eu não fiz nada, ele resolveu fazer o trabalho manual para mim. Imaginei que já tivéssemos um grau de intimidade relativamente bom para eu começar a falar com ele, então perguntei quantos anos ele tinha. O diálogo foi basicamente o seguinte:

– Quantos anos cê tem?
– 29.
– Legal. Cê costuma vir aqui sempre?
– Aham, eu quero te chupar agora…
– Err beleza, mas cê tá acostumado já a vir aqui?
– Quê? Levanta aqui do meu lado pra eu poder te chupar.

Levantei, mas na real para sair da sala de vídeo. Ficou bem óbvio que eu era a única pessoa tentando conversar naquele ambiente: os únicos sons na sauna eram os gemidos distantes dos mais empolgados e uma batida eletrônica aleatória no fundo. Na verdade, ninguém quer muito conversar por lá, pelo contrário. Na minha primeira conversa com Pedro, perguntei qual era a principal motivação que o levava até a sauna e ele foi bem categórico: “Preguiça de enrolação de balada. Essa perda de tempo com joguinho de sedução, quando o que no fim das contas as pessoas estão procurando é sexo. Na sauna é mais rápido, você pula direto essa enrolação toda”.

Uma ou duas horas depois de ter entrado lá, outra coisa muito louca que eu senti foi o fato de começar a não ligar para estar andando pelado no meio de um monte de desconhecidos. Do lado de fora da sauna, o corpo é hiperssexualizado e o sexo é hiperculpabilizado. Talvez seja esse o primeiro passo da sauna: quando desconstruímos os estigmas ligados à exposição do corpo, desconstruímos, por tabela, estigmas ligados ao sexo. Lá dentro, ele é simples, direto e óbvio.

Fomos embora da sauna a tempo de ainda pegar o metrô. Quando estávamos saindo, perguntei ao Pedro quando ele voltaria lá. “Ah, não. Essa é a última vez que eu venho, quero arrumar um namorado”, respondeu. Aos 21, ele frequenta saunas desde os 18. Já faz um tempo que ele diz que quer parar e virar “um cara sério”. Achei curioso: ele parecia bem confortável com o ambiente de liberdade sexual lá dentro, mas pelo visto algum tipo de alarme social voltava a apitar em sua cabeça assim que pisava na calçada. O lado de fora da sauna não perdoa ninguém.

Fonte: http://elasticam.ag/esqueca-tudo-ou-quase-que-voce-acha-que-sabe-sobre-sauna-gay/

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