“Não se nasce humano”, por Joaquim Leães de Castro

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David Le Breton inicia uma discussão interessante propondo uma ideia que gênero é criado e aprendido culturalmente e socialmente.  Em realidade, coloca justamente em debate como questão, ‘quem’ é esse “ser humano” formado a partir das relações entre os indivíduos, pela cultura, pela sociedade, comunidades e grupos sociais.  De certa maneira, conclui: Não se nasce humano, portanto.  Sob essa ótica, ele indaga – Existem diferenças entre sexo e gênero? Segundo Le Breton, nem uma coisa nem outra está dada.  Ambos o sexo como o gênero se constroem através de processos socializantes pelos quais passam os indivíduos. Quais são, portanto, os comportamentos que os indivíduos vão adquirindo ao longo da vida que permitem essa construção? E, num segundo momento, de que forma são aprendidos, introjetados, interiorizados e assim, replicados, repetidos e expressados tais comportamentos.  Segundo Le Breton, a relação indivíduo x sociedade passa a moldar indivíduos com características específicas para cada gênero.  Trata-se de uma tradição transmitida?  O indivíduo que se considera ‘travesti’, como exemplo, que possui um gestual ‘exacerbado’, passa a assumir um ato político em sua própria expressão – uma autoafirmação de que se é possível reunir ambas as características masculinas e femininas num só indivíduo.  Reside nesse processo de desenvolvimento, portanto, segundo Le Breton, uma enorme plasticidade que bate de frente diretamente com determinismos biológicos,  que abre discussão sobre o que é realmente ‘natural’, e se há algo de natural no processo de ‘humanização’ do indivíduo.  Sendo assim, colocando em xeque tais determinismos biológicos, fica a teoria de que o indivíduo se torna humano com o convívio e a partir de substratos culturais presentes em cada comunidade.  Nesse processo, Le Breton ressalta que na busca por uma sensação de segurança, do se sentir pertencente a um grupo, sociedade ou comunidade, o indivíduo acaba por per ter sua liberdade ameaçada e limitada.  Trata-se de uma dinâmica pendular que tenta, no frigir dos ovos, encontrar espaços de equilíbrio e denominadores comuns que satisfaçam direitos e desejos pessoais dos indivíduos, suas liberdades e um “bem” maior que permeia a própria relação desses indivíduos:  a ética, a moral e os demais conjuntos de valores que estruturam e fundamentam uma vida ‘funcional’ em sociedade. Existe, segundo Le Breton, um universo simbólico em comum que se forma.  Onde indivíduos compartilham dos significados criados e existentes e que são atribuídos, por exemplo, ao (gênero) masculino e ao feminino – gestos, palavras, formas de vestir e assim por diante.  Le Breton discute quais são as convenções arbitrárias que existem em determinadas culturas como, por exemplo, o vermelho que em sinais de trânsito significa ‘PARE’.  Noutro exemplo, na criação de expectativas sociais que são atreladas a manifestação das emoções.   Le Breton coloca que o ‘ser humano’ está o tempo todo produzindo significados de forma a conseguir operar uma comunicação em comum. É algo inventado, acordado e convencionado.  Trata-se um processo que está apto a ser re significado, quando dada a possibilidade de transformação.

José Carlos Rodrigues acrescenta a discussão de Le Breton uma ideia sobre a relação entre o corpo humano e os fenômenos culturais.  Um corpo que, através de processos civilizatórios, foi se tornando cada vez mais contido, individualizado e se tornando objeto de discursos moralistas.  O corpo transformou-se em algo indecente e que deve estar em permanente ajuste junto às regras de cada cultura e sociedade.  Nesse processo de individualização dos corpos e, portanto, desses sujeitos, vemos escolhas que os indivíduos tomam que já estão direcionadas para determinados públicos, algo, então, que já lhes é dado.  Há nesse jogo, portanto, uma perspectiva biológica, uma linguagem da física e da química, que almeja uma lógica de práticas uniformizadas – são corpos independentes das especificidades dos sujeitos. Como regente dessa ópera reducionista, está uma medicina científica e racional dirigida por anatomistas que cristalizam o olhar e os estudos sobre o corpo e que veem um homem enquanto experiência separada do seu corpo, assim, corpos separados dos sujeitos.  Uma lógica focada na “razão”.  A Biomedicina que atesta que importante é entender esse corpo calculado e, assim, uma visão que dá margem ao surgimento de um corpo sem vida que é, no caso, embasado num estudo simples da anatomia.  Dessa forma, o autor fala num sujeito tripartido estabelecido por essa ótica:

  1. Separado de si mesmo, tendo um corpo e não sendo um corpo.
  2. Separado dos outros, da comunidade. Um sujeito singular e autônomo.
  3. Separado do cosmos.

São ignorados os desejos e intenções, importando apenas mecanismos corporais numa clara desvalorização dos sentidos onde se busca e se almeja apenas um ‘corpo-produto’ que funcione. Sendo assim, consolida-se uma cultura que simplifica a experiência humana, gerando, então, vetores que atravessam os indivíduos e que reforçam ideias desse corpo-produto que deve funcionar de determinada maneira a fim de atender a lógica de práticas uniformizadas, ignorando especificidades dos sujeitos. O tornar-se humano, portanto, acaba revelando no seu processo, destinos imputados e definidos de saída e, no que concerne questões de gênero, reforçando o binômio masculino e feminino que é dado e que é colocado como pertencente a uma noção de normalidade.

Dessa forma, Marcel Mauss, acrescenta de maneira pontual à discussão a ideia de que o corpo é o primeiro e o mais natural instrumento do homem.  Um meio técnico e objeto técnico.  Que o homem se diferencia dos animais justamente devido a transmissão de técnicas. Uma transmissão de técnicas que permeia processos de individualização dos corpos e que reside nos processos de desenvolvimento dos indivíduos.  Que através dessa transmissão, os indivíduos constroem conjuntos de atitudes e de valores diferentes e que compõem os ‘hábitos’ dos homens.  Na realidade, o hábito, o exigido, o adquirido varia não somente entre os indivíduos mas acima de tudo com as sociedades, as educações, as conveniências e as modas.  Mauss discute a importância, portanto, de se tentar ver o corpo como técnica para se tentar compreender qual é a obra da razão prática coletiva e individual que se forma.  Quem é esse homem “total”? O conjunto de três elementos indissoluvelmente misturados? O elemento biológico, psicológico e social?  Mauss considera que o ser humano está ‘montado’ justamente em várias séries de atos fisio-psico-sociológicos.  Conclui, em uma de suas observações com os Maori, que não existe, por exemplo, um modo de andar que seja ‘natural’ entre adultos.  Como exemplo, ficam algumas técnicas que são transmitidas: Técnicas do nascimento: Parto em pé, parto deitado, parto de cócoras.  Técnicas do Sono: sociedades que dormem no chão e sociedades que dormem em camas.  Mauss procura trabalhar com a ideia de que ‘hábitos’ variam em indivíduos, sociedades e educações. Desta forma, que o comportamento é imposto. Segundo Mauss, em tese, uma sociedade sabe, e seus integrantes procuram aprender o que se fazer em todas as condições que se apresentarem.

Dessa forma, em conclusão, não se nasce humano.

Referências Bibliográficas
LE BRETON, David. Antropologia del cuerpo y modernidad.
MAUSS, Marcel.  As técnicas corporais.

Joaquim Leães de Castro

Joaquim Leães de Castro é Psicólogo Clínico com Especialização em Terapia Cognitivo-Comportamental e Pós-Graduado em Sexualidade Humana.  Experiência com atendimento clínico a adultos e casais.  Atualmente Coordena no Hospital Rocha Maia serviço de Psicoterapia e Psicoeducação Sexual destinado aos usuários do SUS do município do Rio de Janeiro.

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