“Casei com um ex-travesti que me faz muito feliz!”

“Não tenho vergonha de estar ao lado do Sérgio, muito pelo contrário: depois de viver 30 anos como mulher, ele virou um homem mais sensível, amoroso e que me entende como ninguém!”

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Quando o Sérgio me mostrou as fotos do seu passado, não vou negar que fiquei chocada. Ver meu namorado vestido com roupas femininas, usando silicone nos seios e nos quadris, com cabelo comprido, maquiagem e fazendo poses ousadas, foi difícil de processar. Mas nem pensei em largá-lo. Aquele passado era uma página virada da história do Sérgio e só o que importava era o nosso futuro. Eu ia sim me casar com um ex-travesti!
Quando nos conhecemos, ele estava em transição
Antes de conhecer o Sérgio, em 2011, eu só tinha tido um único relacionamento sério. Já fazia dois anos que eu estava sem nenhum namoro fixo quando ele entrou como voluntário na igreja batista onde eu trabalhava, em Curitiba (PR).
Passamos a atuar juntos como missionários. Logo me encantei pelo seu jeito divertido. Eu notava que ele tinha uma aparência um pouco diferente: algumas formas do corpo eram avantajadas e os trejeitos eram meio efeminados. Será que era gay?
Logo ficamos amigos e o Sérgio me revelou que tinha passado praticamente sua vida toda como travesti. Naquele momento, ele ainda estava na transição para voltar a ter corpo de homem e continuava com alguns resquícios de silicone.
Sérgio também me contou que chegou a se prostituir e que, até então, só tinha se relacionado com homens. Confesso que não esperava ouvir aquilo, mas não me assustei. De alguma forma, o jeito diferente do Sérgio, mais sensível e agradável que outros homens, me encantava. Fomos amigos por três meses, até que ele me chamou para um encontro e me pediu em namoro!
Fiquei tentada a aceitar, mas achei melhor nos conhecermos mais. Depois de três meses de convivência, tive certeza de que o Sérgio era o homem certo pra mim e disse “sim”! Nem as fotos dos seus tempos de travesti abalaram minha convicção e meu amor por ele! Meus familiares gostaram do Sérgio e o aceitaram muito bem, até porque ele sempre deixou seu passado às claras, para quem quisesse saber. Já meus amigos diziam que isso não tinha cabimento, que eu ia me machucar…
Mas eu estava disposta a mergulhar naquela história de cabeça e, em abril de 2012, o Sérgio me chamou para morar com ele em São Paulo, onde faria parte de uma missão da igreja para ajudar dependentes de drogas. Topei na hora!
Casamos no final daquele ano: foi o momento mais lindo da minha vida! Vestida de branco, com minha família e alguns amigos ao redor, me emocionei ao ver o homem que eu tanto amava entrando na igreja num terno. Meu amor chorou o tempo todo!
 
A história do meu marido é um exemplo
Desde então, vivemos felizes e não me importo com nenhum comentário negativo sobre nossa relação. Até porque nunca tive preconceito. Quando vivia em Curitiba, tinha amigos travestis. Minha religião nunca me tornou intolerante. Mas sei bem como a vida é sofrida para essas pessoas. Como elas são desrespeitadas, julgadas e desprezadas até por suas próprias famílias. Por isso, algumas acabam se afundando nas drogas e na prostituição. Foi o que aconteceu com o Sérgio e o que motivou sua mudança. Ele tinha vontade de ter uma vida mais tranquila e saudável, constituir família. E só conseguiu tudo isso depois de deixar seu passado pra trás.
Mesmo com tantas experiências ruins, os anos vivendo como mulher transformaram meu marido num homem mais sensível, que consegue me entender melhor, ser mais carinhoso e atencioso. Ele sempre lembra de dizer “eu te amo” ao longo do dia, me dá presentes o tempo todo e me respeita dentro e fora da cama, sendo delicado e gentil.
Hoje, depois de quase três anos juntos, planejamos ter filhos e não vamos esconder nada deles! A história do Sérgio será sempre um livro aberto, pois ela ensina todo mundo a ter a liberdade e a força de vontade para mudar sua história. – MIRIAM MONTEIRO ALVES DE SOUSA, 43 anos, missionária, Pedra Bela, SP
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Sergio Luiz de Souza antes da transformação
“Me apaixonei quando a Miriam me aceitou de braços abertos sem preconceito!”
“Comecei a me vestir de mulher aos 12 anos. Me sentia desejado por homens e me sentia bem com roupas femininas. Aos 15, já me prostituía nas ruas de São Paulo e depois fui para a Europa. Eu parecia mesmo uma mulher, com silicone nos seios e quadris, cabelo compridão, roupas muito justas e sensuais. Depois de viver dez anos fora do Brasil sem nenhum contato com minha família, ao voltar, descobri que um irmão e uma irmã haviam falecido. Entrei em depressão e acabei mergulhando no mundo das drogas. Minha mãe me pagou um tratamento numa clínica de reabilitação e, depois de quatro meses em recuperação, passei a ganhar a vida como cabeleireiro, ainda me vestindo de mulher. Oito anos depois, tive uma recaída e fui parar na Cracolândia, em 2005. Quando os pastores da igreja batista ofereceram ajuda por meio da missão que eles realizam para resgatar dependentes químicos das ruas, em 2010, me dei conta de que precisava sair daquela vida. Eles não tiveram preconceito nem me obrigaram a deixar de ser travesti. Foi uma escolha minha. Me sentia errado naquela vida falsa. Estava disposto a me transformar completamente. Decidi me tornar missionário ao lado dos pastores que me salvaram para ajudar pessoas em desespero como eu. E, fazendo isso, conheci a Miriam. Quando ela me aceitou de braços abertos, me apaixonei. Era uma sensação totalmente nova pra mim. Mesmo nunca tendo estado com outra mulher, a Miriam me fez perceber que era aquilo que eu queria. A cada dia, descubro coisas novas ao lado dela. Até na hora do sexo, vi que sou capaz de sentir prazer ao lado de uma mulher e dar esse mesmo prazer a ela. Nos completamos!” – SERGIO LUIZ DE SOUSA, 45 anos, missionário, o marido da Miriam
Custo da mudança pode ser alto
A opção do Sérgio de não ser mais travesti deve ser respeitada, segundo Janaína Lima, coordenadora do grupo LGBT Identidade. Mas ela ressalta: “Muitas travestis decidem mudar porque enfrentam preconceito da sociedade e têm seus direitos negados. Sua identidade é associada a algo negativo e isso não deveria acontecer”. O custo dessa mudança pode ser alto, de acordo com Alexandre Saadeh, psiquiatra do Ambulatório de Transtorno de Identidade de Gênero do HC. “Pode ser difícil controlar seus desejos e a expressão verdadeira de quem você é. É importante o acompanhamento psicológico”.
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