‘Algo gostoso, fácil e barato é o que se quer da vida’, por Danuza Leão

A escritora descreve fatos comuns da rotina, como o dia em que uma amiga precisou preparar um menu simples e comprou um tomate.

Sumi no carnaval deste ano para bem longe. Depois de ter visto tantos carnavais e tantas escolas desfilando, tive uma imensa necessidade de não ouvir um só samba, não ver um só bloco nem uma só rainha de bateria. E fui para Paris, claro. Quando estou em Paris, vivo exatamente como aqui; passeio o dia inteiro pelo bairro, descubro sempre alguma coisa nova, como bastante (adoro) e, às 11, já estou na cama. Noitadas em Paris? Só até os 18 anos.

A cronista Danuza Leão

Tenho uma amiga que mora lá e conta com uma empregada que vai duas vezes por semana por duas horas – quem cozinha é ela (minha amiga), todos os dias de todos os meses de todos os anos. Entre nós ficou logo estabelecido que aos domingos almoçaríamos juntas, em sua casa, mas eu levaria a comida. Adorei a ideia do piquenique: ela me passou uma listinha e lá fui eu às compras.

Não chega a ser um sacrifício ir a um supermercado em Paris. Em primeiro lugar, porque, por mais que a fila pareça enorme, cada pessoa está comprando o que precisa especificamente para a refeição daquela hora; por isso, a fila anda rápido. Em segundo lugar, porque as coisas que a gente vê nas prateleiras são tão maravilhosas, tão fáceis de preparar que eu passaria uma semana inteira dentro de um bom supermercado, e seria uma viagem maravilhosa.

Minha lista era curta: metade de um frango, assado na hora e cheiroso; batatas ao forno com alecrim; e um tomate. Você não leu errado: eu falei UM TOMATE. Mas para que alguém quer um tomate? Para fazer uma flor e enfeitar o prato, talvez? E será que me venderiam UM tomate ou me expulsariam da loja?

Fiquei lembrando às vezes em que a empregada – quando eu tinha uma em tempo integral – me entregava a lista do supermercado. Laranja, por exemplo, era por dúzia e cansei de pedir uma dúzia da seleta mais uma de laranja-lima e uma e meia de lima-da-pérsia. Para as caipirinhas, limão era aquela redinha com dez ou 12. E dois abacaxis, três mangas, por aí vai.

Voltando aos tomates, era de 1 quilo e meio a 2; cebola, 2 quilos – não é um exagero de cebola? Pois, na época, nunca parei para pensar; era o cotidiano de minha casa, fora as carnes, os peixes, os legumes, as frutas. Lógico que boa parte das coisas ia parar no lixo. Quanto desperdício, quanto dinheiro jogado fora. Mas o tomate, para que era aquele tomate? Vou contar.

Quando cheguei com as sacolas, a primeira coisa que minha amiga fez foi organizar: para um tabuleiro foi o meio frango com as batatas; daí para o forno baixinho; aí pegou o tomate – tão bonito quanto um brasileiro -, retirou as sementes, cortou em pedaços, botou numa saladeira pequena, tirou do armário uma garrafa com um molho de salada que ela faz em grande quantidade – assim, quando precisa, já está pronto; aliás, grande ideia -, respingou, jogou por cima folhinhas de manjericão e nossa entrada estava pronta.

Pronta e gostosa, fácil e barata, o que se quer na vida. Aí pensei em como aqui no Brasil estamos atrasados em matéria de facilitar a vida. Como é tudo complicado, tudo é refogado em alho, cebola e ervas e tudo dá muito trabalho. Como fazem as mulheres que trabalham, têm marido e filhos e o péssimo hábito de jantar?

Voltando ao assunto, na bancada onde estavam os tomates, não acreditei no que vi e contei para não esquecer: eram 12 qualidades diferentes, de cores e formatos que jamais imaginei que existissem neste mundo. E eu, que tenho poucas prendas domésticas, pensei em comprar todos aqueles tomates e fazer um lindo buquê para o centro da mesa.


Compre o último livro de Danuza Leão, “Sem Juízo”: http://bit.ly/ebooksemjuizo

Último livro de Danuza Leão

Leia também: ‘Mulher tem memória’, por Danuza Leão

Anúncios