A primeira manhã do ano | Danuza Leão

Estava meio deprimida, e a receita nesses casos é só uma: ir para casa, tomar um tranquilizante, se enfiar na cama, ligar a televisão e esperar passar. Mas fez tudo ao contrário, como quase sempre: saiu, bebeu -mal- e aprontou. Quando acordou de ressaca, olhou para o lado e viu um homem dormindo na sua própria cama, quis morrer. Como nem em coma alcoólica se faz o que não se quer -você algum dia convidou o mendigo da esquina para um último drinque em sua casa?-, sabe que ninguém a obrigou a nada.

Bebendo, fazemos apenas o que não temos coragem de fazer em sã consciência, e só. E agora? Vai ter a obrigação de dizer bom dia, oferecer um suco, talvez até um café, e ele ainda pode querer tomar uma chuveirada? O ideal seria se ele dissesse que precisava ir embora voando, o que nesse caso valeria como uma rejeição, outra tragédia.

Mas digamos que ele seja gentil, se instale na sala e, depois de elogiar a vista e a decoração, puxe um assunto. Nem pensar. Afinal, o fato de duas pessoas dormirem juntas não tem nada a ver com intimidade. Que ele fique dez minutos ou 40, em alguma hora vai ter que ir embora. Você vai levá-lo até a porta e podem acontecer duas coisas: ele dizer um vago “a gente se vê”, o que seria péssimo, ou querer marcar um jantar para aquela noite, o que também seria péssimo.

Mesmo que esteja arrependida da loucura que fez, nenhuma mulher merece tanta indiferença, como no primeiro caso; vai ficar arrasada, e o analista está de férias, claro. Por outro lado, sair para jantar nem morta, vai entender a cabeça das mulheres. É, ainda não aprendeu a ter juízo, e sente a maior falta de um cigarro; naquele momento daria a vida por um, mas largou o vício, e se pergunta a troco de quê.

Se pensar bem, vai perceber que sempre que está mal e resolve sair para “espairecer” acaba fazendo alguma coisa que não deve, seja o que for. Mas será que alguém é perfeito e nunca faz nada de que se arrependa?

Se conseguir esfriar a cabeça e lembrar do que já ouviu das amigas, vai ver que não é a única a às vezes fazer bobagens, mesmo sem ter bebido uma gota de álcool. Ou porque está triste, ou porque está carente, ou porque a vida é assim mesmo, com altos e baixos, e pronto. E tem mais: os homens também fazem muita bobagem, só que ficou combinado que eles podem tudo, e por mais que as mulheres tenham conseguido, etc. e tal, nesse quesito ficaram praticamente na mesma. Você algum dia ouviu alguém chamar um homem de “vadio”? E uma mulher “vadia”, já ouviu falar? Pois é.

Mas fique tranquila: a culpa é dessa terrível semana de festas, que felizmente já passou. Para hoje, suas únicas preocupações devem ser dispensar o professor de ginástica, dizer que só recomeça quando os termômetros estiverem marcando 25 graus, e, quando for pagar o sushi que vai pedir por telefone, não errar no cheque: agora é 2010. Praticamente mesmo, foi só o que mudou.

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