‘O Carnaval ideal’, por Danuza Leão

"Mais do que pelos desfiles, pelos blocos de rua; apenas -apenas?- para desfrutar da cidade numa relativa paz." Danuza Leão

A melhor época para curtir o Rio é durante o Carnaval. Mais do que pelos desfiles, pelos blocos de rua; apenas -apenas?- para desfrutar da cidade numa relativa paz. É uma delícia; muitos cariocas viajam, os turistas só querem saber de samba, e até mesmo os assaltantes costumam dar uma trégua: param de trabalhar e se dedicam apenas à folia. O resultado é uma cidade tranqüila, com praias vazias, restaurantes idem e cinemas sem fila, pois quem passa as noites em claro e sambando precisa dormir, até porque no dia seguinte a festa continua.

Com o maestro Edson Frederico em outros carnavais
Com o maestro Edson Frederico em outros carnavais

Não há nada melhor do que uma cidade com todos os confortos da modernidade, mas sem um só dos problemas das grandes. Poucos carros nas ruas, pouca gente nas calçadas; é só olhar no jornal para saber hora e local da saída dos blocos e ir para o lado oposto -e a pé. Nem pensar em sair de carro, nesses dias se pode andar nas ruas com tranquilidade, e até usar um anelzinho, sem medo de assalto. Serão quatro dias inteiros sem fazer nada, e sem celular, que delícia; poder passar a agenda de telefones a limpo e ler vários livros ao mesmo tempo, sabendo que o telefone não vai tocar, é bom demais.

Praia até o meio-dia, depois um almocinho num restaurante da orla, à tarde um soninho leve, e à noite todos os filmes escolhidos no capricho, para escapar das escolas de samba. Para usufruir desse imenso prazer, deve-se ligar a TV, ver a primeira escola desfilar, a segunda, e só aí, aliviado, começar a sessão de cinema. Lá pelas 3h da manhã, vale ligar a TV mais uma vez, se atordoar com a animação das escolas, e aí exercer seu sagrado direito de escolha, isto é, desligar a máquina e dormir o sono dos justos, sabendo que amanhã é feriado, terça e quarta também, e que se está longe desse insensato mundo. Oh, felicidade.

Mas é bom se preparar; pode acontecer de, às 7h da noite de hoje, dar uma aflição e uma vontade louca de ir ver o desfile. Se isso acontecer, ligue para aquela amiga que trabalha no camarote de uma cervejaria e peça uma camiseta pelo amor de Deus.
Ela resolve: amigas são para essas coisas também. Aí é só botar um tênis, uma flor no cabelo, exagerar na maquiagem e ir para a avenida, sem nem lembrar que tenha cogitado, por um só momento, ficar longe da festa.

E se alguém ousar te cobrar uma certa coerência -afinal, você não disse que não queria nem ouvir falar de samba?-, responda que faz parte dos direitos do homem mudar de opinião, sobretudo quando se está falando de Carnaval.

E vá, e caia na folia, e torça por sua escola, e se prepare para o desfile de amanhã, que você também vai assistir, claro; e se o seu patrão for tão insensível que queira que você trabalhe na Quarta-Feira de Cinzas, mande alguém ligar amanhã cedo dizendo que na quarta vai acordar com febre, porque nada será mais importante nesse dia do que acompanhar o julgamento das escolas. Seu coração vai parar a cada nota 10 (10, nota 10) que sua escola receber, e se ela não ganhar é claro que a culpa foi dos juízes desonestos, mas não há de ser nada. Porque no próximo sábado vai ser o desfile das campeãs, e quem sabe ainda dá tempo para desfilar?

Não se pode confiar em quem sempre gostou de Carnaval e diz que mudou, que agora só quer paz e sossego; um ex-carnavalesco é coisa que não existe -eu, pelo menos, não conheço.

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