Danuza Leão: ‘Aprendendo a viver’ 🙅

"No aniversário, temos o direito de nos dar ao luxo de não fazer absolutamente nada que não queremos". Aprendendo a viver, por Danuza Leão

Um aniversário é sempre um problema. Quando se é criança, é ótimo, e só pensamos numa coisa: nos presentes que vamos ganhar. A partir daí, é complicado. Quando a vida está ótima, queremos festejar, quando estamos mais ou menos, saímos para jantar fora com alguns amigos -cada um paga o seu-, e quando estamos numa fase horrível, não queremos nem ouvir falar.

Danuza Leão – Revista Manchete

Mas as coisas não são assim tão fáceis: tem sempre uns que lembram -como conseguem?- dos aniversários de todo mundo, e uns dias antes “dessa data querida” já telefonam perguntando quais são os planos. A resposta é sempre meio capenga, tipo “não sei, as crianças querem jantar comigo mas ainda não está nada certo”, com medo de no dia dar um bode e se ver sozinha, logo nesse dia.

As crianças, claro, se limitam a telefonar, isso quando lembram, e desejar felicidades, ou porque pensam que você tem mil programas ou porque jantar com mãe no dia do aniversário é um mico certo. Chega o dia e você não sabe o que vai fazer, nem o que gostaria de. No fundo, que o dia seguinte chegasse depressa. E a cada um dos amigos (poucos) que lembram e telefonam dá uma desculpa meio esfarrapada e deixa as coisas no ar, esperando que surja alguma idéia brilhante. E se alguém cantar, mesmo baixinho, o parabéns? É para se enfiar debaixo da mesa, de vergonha.

Os anos vão passando e as coisas, piorando; pensar que tem um ano a mais não tem a menor graça, e não é razão para festejo algum. Mas fazer o quê? Ser obrigada a fingir que está achando ótimo, receber lembrancinhas inúteis e se arriscar a voltar para casa na maior deprê, tentar esquecer que é o famoso dia? Ai, Deus, as datas.

Eu já tentei todas as soluções: viajar, tirar o telefone do gancho -mas aí tem os e-mails e os telegramas de algumas lojas que perguntam quando é o grande dia, para fazer a ficha e você, distraída, diz. Podia dizer o dia errado, mas esquece, e aí não escapa. Mas este ano eu encontrei a fórmula perfeita, que vou contar.

A cada uma das pessoas que telefonaram eu driblei; disse que uns amigos tinham me convidado para jantar, a outros que não tinha escapado da família, e às 7h da noite estava sozinha, sem nada para fazer.

Jantei normalmente, vi televisão e fui dormir à mesma hora de sempre -11h, 11h30. Foi um grande presente que me dei, e um dos melhores aniversários que já passei. No dia seguinte fiquei pensando por que tinha sido tão bom e descobri: no dia do nosso aniversário temos o direito de nos dar ao luxo de não fazer nada, absolutamente nada que não queremos. Não é uma decisão radical, muito pelo contrário.

Cada um é livre para fazer o que quiser: dar uma festança, mandar fazer um bolo de velas, qualquer coisa que esteja querendo, mas nada que não esteja querendo, só para fazer a vontade dos outros.

Depois que aprendi isso, dou esse conselho a todos os que são como eu, e todos estão se dando muito bem e muito gratos.

Agora estou estendendo esta filosofia para os outros dias do ano, e espero conseguir chegar a todos. Tirando as obrigações de trabalho, que no fundo, como tenho a sorte de gostar do que faço, são um prazer, e outras que a gente não pode mesmo deixar de cumprir, não pretendo nunca mais fazer nada que não queira, que me violente, que me deixe o dia inteiro estressada, pensando “ai, por que fui aceitar?” E nunca mais pensar “ai, não posso deixar de ir”, porque quase sempre se pode.

Nunca é tarde para aprender a viver melhor.

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