Danuza Leão: ‘Infância na Praia’

Não se pode dar corda à memória: a gente começa brincando mas ela não faz cerimônia e vai invadindo nossas mentes e nossos corações. Para mim são, ainda e sempre, as recordações da infância na praia muito mais fortes do que eu podia imaginar.

Infância Danuza Leão
Quando ainda tinha medo da câmera

No terreno das brincadeiras, a mais comum era o caldo: quem não se lembra do terror de levar um? Também se brincava de jogar areia nos outros, aos gritos, para horror dos adultos, e a pior de todas: se deixar ser enterrada ficando só com a cabeça de fora, e todo mundo fingir que ia embora, só de maldade, deixando você sozinha e esquecida.

No terreno mais leve, a grande proeza era mergulhar e passar por baixo das pernas abertas da prima, lembra? Aliás, essa é uma raça em extinção: as primas.

Elas eram muitas, e a convivência, intensa. Hoje, nas cidades grandes, existem poucas tias e pouquíssimas primas. Há quanto tempo não se ouve alguém dizer que foi ao cinema com a prima?

As crianças catavam conchas para colar, e era difícil fazer um buraquinho com um prego e um martelinho, sem quebrar a concha, para passar o barbante. As cor-de-rosa eram as mais lindas, e quando se encontrava um búzio, era uma verdadeira festa. As conchas acabaram; onde terão ido parar?

No final da tarde, a praia já sem sol, voltavam os barcos de pesca: as pessoas ficavam em volta comprando o peixe nosso de cada dia, que seria feito naquela mesma noite ensopado, com pirão, ou frito, acompanhado de purê de batata. Nesse tempo não havia nem alface nem tomate nem molho de maracujá, e para dar uma corzinha na comida se usava colorau – já ouviu falar? Às vezes surgia uma jarra com uma cajuada feita na hora, e fico pensando: como se fazia cajuada, se não existia liquidificador?

Camarão só às vezes, mas, em compensação, havia cações com a carne rija, que davam uma moqueca muito boa. Os peixes eram vendidos por lote, não custavam quase nada, e o que sobrava era distribuído ali mesmo. Mas os fregueses eram honestos, e ninguém deixava de comprar para levar algum de graça, no final das transações.

Às vezes corria um boato assustador: que o mar estava cheio de águas-vivas, o que era um acontecimento. Água-viva é uma rodela gelatinosa que, segundo diziam, se encostasse no corpo, queimava como fogo. Ia todo mundo para a beira da água tentando ver alguma, mas ninguém entrava no mar, de medo. No dia seguinte, a areia estava cheia delas, e com uma varinha a gente ficava mexendo, sempre com muito cuidado: afinal, era uma gelatina, mas viva -uma coisa mesmo muito estranha.

Para evitar queimaduras, se usava óleo Dagele, e se alguém dissesse que anos depois uma massagem de algas, daquelas mesmas algas verdes e marrons com as quais a gente dançava dentro da água num balé quase erótico -mas sem saber-, não custaria menos de US$ 100 em Nova York ou Paris, ninguém acreditaria.

Os pais e tios tinham uma convivência aparentemente tranqüila, mas foi preciso que se passassem anos para entender que a maneira como eles olhavam para as sobrinhas e as amigas das filhas não era tão inocente assim. Tudo era tão direito que ninguém ousaria imaginar o que se passava na cabeça daqueles homens sérios, de pijama e chinelos, que iam à cozinha pegar água da moringa, à noite, e aproveitavam para olhar pela porta do quarto para ver se as filhas, as amigas das filhas e as primas das filhas estavam dormindo direito.
Naquele tempo não havia refrigerantes, não se tomava água gelada, e as crianças rezavam uma ave-maria antes de dormir, sendo que algumas ajoelhadas.

Aos sábados nos confessávamos, e nos domingos íamos comungar em jejum.

Não havia abajur nas mesas de cabeceira e na hora de dormir se apagava a luz do teto, com sono ou sem sono, e ficávamos com os pensamentos voando, esperando o sono chegar.

E ninguém se queixava de nada, até porque não havia do que se queixar, porque era assim e pronto.

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